Texto: Nelma Viana
Ilustração: Rita

Não há mais nada que se possa acrescentar ao assunto “Tinder”. Quem queria sexytime, sexytimou; quem tentou encontrar o amor da vida, talvez tenha encontrado; quem quis ser javardo, foi e quem tinha de sofrer com a falta de resposta do outro lado, já carpiu tudo o que havia para carpir.

O Tinder é old news e provavelmente a minha filha, frutozinho mais lindo nascido em resultado de um Tinder date que correu bem de mais, nunca saberá que porra de ideia antiga era aquela que juntava pessoas ao telemóvel com base, única e exclusivamente, em meia dúzia de fotos tiradas do Facebook. No meu tempo era assim e eu sou do tempo em que ainda havia alguma reticência em sacar a aplicação por se acreditar que o engate tinha de seguir um protocolo rigoroso de troca de olhares, risinhos mascarados, número de telefone, cafezinhos e jantares… sei lá eu.  Estive quase 10 anos fora do mercado e quando voltei dei de frente com um novo paradigma: ei-lo, o Tinder.

Numa fase da minha vida que não se pode dizer especialmente profícua, a viver longe do centro da cidade numa casa com TDT e sem wifi, com meia dúzia de trocos na conta e um longo verão pela frente, era chegada a altura de me deixar de merdas e entrar no jogo.

Muito rapidamente e a título de curiosidade, encontrei essencialmente carecas inseguros que disfarçavam a falta de cabelo de duas maneiras: 1) cortando a fotografia no cocuruto e 2) com hoodies, gorros ou bonés; propuseram-me pinar com F; elogiaram-me os dentinhos (que não estavam à mostra em lado nenhum) e enviaram-me dick pics não solicitadas em início de conversa. Repetidamente. Insistentemente em alguns casos.

Apaguei a aplicação.

Na primeira volta reparei num francês magnífico, alto, lindo, pescoço bem definido, t-shirt ligeiramente aberta, óculos de massa e ar bem disposto. Comentei com uma amiga que, estando também ela no Tinder, me confirmou que lhe tinha deitado o olho — na altura a oferta era fraca.

Numa segunda ronda, porque há sempre uma recaída e, em abono da verdade, só ter quatro canais de televisão pode provocar sintomas de aborrecimento inimagináveis, voltei a cruzar-me com o perfil do “French guy living in Lisbon. Interested in books, arts and bike rides. Speak french, english and portuguese”. Epá, de arte percebo pouco e bike rides é coisa que não faço há mais de 20 anos, mas vendo bem as coisas já temos em comum o facto de vivermos na mesma cidade, o inglês e o português e o gosto pela leitura. Chega, não chega?

Lancei o isco, match imediato. Ok. Ele começou a conversa com um elogio ao meu sorriso na terceira foto. Eu não sorria em nenhuma das três que tinha publicado e pensei que das duas uma: ou é mais um parvo e está só a fazer conversa de treta, ou tem sentido de humor e quero já conhecer. Devolvi-lhe o elogio, sendo que ele estava seríssimo em todas as fotos, e esperei pela resposta. Percebeu que eu percebi a piada e alinhou. Boa!

Trocámos números de telefone e comunicámos à antiga, por SMS e telefonema, muito por causa de ele usar um Nokia. Conhecemo-nos numa segunda-feira, jantámos na quarta e na sexta… bom, adiante. Uma semana depois, no pico daquela paixão inicial,  saí de Lisboa para uma viagem de quatro meses pelo país e ele, o meu francês, acompanhou-me em quase todas paragens. Correu Portugal de comboio para me encontrar, ansiosa, feliz e apaixonada, nos destinos mais remotos e quando demos por ela já éramos namorados.

1068 dias depois do primeiro encontro, a 1 de setembro de 2018, nasceu a Luísa, a nossa primeira filha, o nosso Ovo Tinder — ele odeia a piada —, a coisa mais certa que fizemos na vida depois de sacar a aplicação.

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