Foto de Frederico Martins

Chama-se “Desafiar Estereótipos” e é um projecto pedagógico de educação para a igualdade de género e oportunidades escrito por Ana Bacalhau. O livro, feito para a comunidade escolar do ensino secundário, pretende, “através de uma performance teatral ou peça de teatro, e de temas musicados pela artista, que os jovens possam reflectir e debater sobre conceitos associados ao tema da igualdade: estereótipos de género; usos do tempo; papéis de género; androcentrismo; empoderamento; capacitação; assédio sexual; entre outros.”

A propósito do lançamento do projeto, entrevistámos Ana Bacalhau, artista a solo e vocalista dos Deolinda.

Como surgiu a oportunidade de escrever este projeto pedagógico?
Foi através do convite da Betweien. Deram-me carta branca para escolher o tema e pensei que só poderia ser este.

Infelizmente, em Portugal, a igualdade de oportunidades não é total. Há mais mulheres (e mais mulheres com estudos superiores) mas poucas em lugares de chefia. O que acha que é preciso fazer para mudar isto?
Penso que o mais importante e que resultaria a curto-médio prazo, seria resolver a forma como se vê o exercício da maternidade e paternidade pela sociedade e, em especial, pelo patronato. Aos olhos da nossa sociedade, a mãe ainda é vista como a cuidadora principal e sobre o pai recai a responsabilidade da carreira, da dedicação ao trabalho. As licenças de paternidade são ainda tímidas, em comparação com os países nórdicos, por exemplo. Penso que só quando for obrigatório dividir o tempo de ausência do trabalho para prestação de cuidados à família igualmente entre pais e mães, deixará de haver a desculpa clássica que tem barrado muitas mulheres ao acesso a lugares de poder.

Sendo mãe de uma menina, pensa que terá de a criar e de lhe passar ideias para que ela se aprenda a defender-se e a não deixar-se “maltratar” pela sociedade e meio profissional?
Sim, infelizmente. Gostava de não ter de lhe explicar que terá de se esforçar sempre um bocadinho mais porque nasceu mulher, mas se quero prepará-la para os desafios que irá ter de superar na sua vida, terei de lhe explicar que o facto de ser mulher irá dificultar atingir os seus objectivos.

Sente ou sentiu que alguma vez foi tratada de forma diferente por ser mulher? Foi vítima de paternalismo?
Sim, sinto muitas vezes que as minhas ideias só vão para a frente quando são validadas por um homem.

Com este projeto pretende continuar a ser ativa, de outras formas, na defesa da igualdade de género?
Pretendo deixar a semente de pensamento nas gerações que daqui a uns anos irão tomar as decisões importantes para a nossa sociedade. Só mudando mentalidade se pode chegar àquilo que se pretende: a paridade, a igualdade de oportunidades, direitos e deveres entre homens e mulheres.

Imagine que era possível ter uma sociedade absolutamente justa para as mulheres. Como a imagina?
Imagino que fosse uma sociedade justa para todas as minorias e que, portanto, viveria em paz e prosperidade. E amor, sobretudo, amor, que é o que vai escapando cada vez mais a este mundo.

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