Foto de Manuel del Moral

Texto: Diana

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver agora, com duas filhas, maior, mais confiante, mais forte, capaz de falar em público e quase sempre nas tintas para o que os outros pensam.

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver agora casada, feliz, independente, valente. A trabalhar todos os dias, a dar atenção a duas crianças, a conseguir educar duas crianças, a cuidar delas.

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver agora que já não escondo as mãos nas mangas compridas das camisolas porque já não tenho vergonha de serem grandes, mostro-as cheias de anéis como quando era pequena e pirosa e não tinha noção.

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver agora, despachada e autoritária, tão diferente da miúda assustada e tensa que estava sempre a tentar passar despercebida. Se ela soubesse que a maioria das pessoas da escola não importam para nada, e que desapareceriam para sempre da sua vida. Se ela soubesse, no entanto, que continuaria a a ser tensa mas por razões diferentes, ansiosa, mas ok com isso.

Se o meu eu de 16 me pudesse ver agora teria ido ao médico tratar da porcaria da rinite, teria sido menos agressiva com a mãe, menos estúpida e zangada com o mundo, menos fechada, preocupada, tímida, envergonhada, assustada.

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver agora com receio de que um dia as filhas sejam adolescentes como eu iria rir-se e teria tentado ser diferente, de certeza, mas não conseguiria porque o meu eu de 16 anos era teimoso e adorava um drama, adorava sofrer e tinha imensa pena de si mesma.

Se o meu eu de 16 anos me pudesse ver, ver como ficou tudo bem, como o sofrimento e a perda e o permanente sentimento de abandono desapareceu para quase sempre, se ao menos pudesse ver e respirar fundo e ser um pouquinho mais feliz.

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