autocaravana
Miúdos e uma autocaravana. Me-do.

Texto e fotos: Rute Marques

Ah! Viajar de autocaravana… Ir à deriva, sem trajeto marcado, destino fixo, hora para partir ou para voltar. O sonho de qualquer pessoa. Ou o nosso, pelo menos. Aliás, a compra da autocaravana foi mais planeada e sonhada do que os nossos filhos, que foram dois acidentes de percurso (dos bons, claro) nesta estrada da vida. Por isso, quando comprámos a dita, depois de anos a juntar dinheiro, vivemos momentos de grande felicidade, daquela genuína, mesmo. A emoção de quem acabou de concretizar um sonho. Foi bom e foi intenso. Pelo menos até ao momento em que decidimos experimentá-la com os nossos filhos, na altura com dois e quatro anos, e percebemos que às vezes os sonhos também podem tornar-se pesadelos.

Numa curta estreia, de Lisboa até Cascais, tivemos de tudo: excitação extrema, felicidade, pinotes, uma mesa partida, birras, “mãe, tenho fome”, “quero sair”, “já chegámos?” e muitas lágrimas. Minhas, claro, que quase nunca estive sentada no meu lugar. E quando regressamos a casa, só pensava “no que nos fomos meter, pá?” e em pôr a autocaravana à venda no OLX, de onde nunca devia ter saído.

Amor e uma autocaravana.

Ainda assim, não contentes com este cenário, decidimos nesse dia que a nossa primeira grande viagem de autocaravana seria até à Suécia. Ir e vir. Três semanas. Mais de 7 000 quilómetros. “Mas vão levar os miúdos?”, perguntavam-nos frequentemente. “Sim, claro”, respondíamos imediatamente, com aquela falsa confiança de quem sabia que se estava a meter em apuros.

Os preparativos

Os meses seguintes foram feitos de preparativos e planeamento da viagem. Vagamente, porque nenhum de nós é propriamente metódico e organizado. Sabíamos que tínhamos um objetivo, uma meta a atingir, mas só no último mês é que a viagem começou a tomar forma. Conforme fomos delineando o percurso, percebemos que, para atingir o objetivo a que nos propusemos, no tempo que tínhamos, haveria vários dias que teríamos de percorrer cerca de 600 quilómetros. Com dois monstrinhos lá dentro.

Não foi fácil. Consoante a data se aproximava, mais eu vacilava. “Então, mas… e se fossemos antes ali até Badajoz comprar caramelos? Também era divertido!”, dizia eu para o meu homem. Na minha cabeça havia cenários dantescos a acontecer: crianças a chorar, discussões entre o casal, a autocaravana a pegar fogo em andamento ou assaltos durante a noite. Tudo ao mesmo tempo. “Podemos sempre abrir a porta em andamento e largá-los algures pela Europa. Ninguém vai reparar”, respondia-me. Excelente ideia, hum.

Os dias passavam, a data aproximava-se e os nervos aumentavam. E eu, que até sou uma moça calma, acordava a meio da noite a pensar no pesadelo que era levar duas crianças pequenas fechadas numa autocaravana até à Suécia. De tal forma que quando me perguntavam pela viagem, eu respondia: “Epá, provavelmente chegamos ali a França e voltamos para trás”. Genuinamente acreditava nisso. Sorte a minha que o meu homem estava com toda a confiança.

A viagem

Chegou o dia da partida. 3 de agosto. 17h00 em ponto. E sob uns tenebrosos 43 graus, nós partimos. A última semana foi feita de intensos preparativos: compras de supermercado (Olá, latas de atum!), revisão da “nhenhé”, assegurar que tudo estava a funcionar, levar brinquedos e jogos para entreter as crianças e carregar um disco externo com desenhos animados (Olá, “Casa do Mickey”!). Sim. Levar muitos desenhos animados estava no topo das prioridades da nossa “to do list”, até mesmo antes da comida. E sem eles nunca teríamos chegado ao nosso destino (peço perdão a todos os especialistas em crianças), não tenho dúvidas.

Se ficassem aqui não era assim tão mau.

Nessa manhã ainda tive tempo de ir comprar uma ventoinha, para tentar amenizar os efeitos da onda de calor extremo que estávamos a viver. Deixo aqui um agradecimento especial àqueles que me ajudaram a montar aquele verdadeiro quebra-cabeças que era a ventoinha. Vocês sabem quem são. Ámen! Deus está a olhar por vós.

E pronto, aí fomos nós, estrada fora com a casa às costas. Vou poupar-vos aos pormenores da viagem, mas em traços gerais posso dizer que percorremos seis países: Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Dinamarca e Suécia. Conseguimos chegar ao nosso destino final (Estocolmo) exatamente uma semana depois de termos partido, tal como tínhamos planeado. O que foi espetacular, tendo em conta que foram quase 3500 quilómetros com duas crianças pequenas.

A bem da verdade, na ida, a maior pausa que fizemos foi em Copenhaga, Dinamarca, onde chegámos ao fim do dia (a tempo de ir a banhos em Svanemølle Beach) e estivemos o dia seguinte a conhecer. Com muita pena não deu para mais. Aliás, no geral, pode dizer-se que nesta viagem, com muita pena, não deu para muito mais. Passámos por muitos sítios, ficámos em lugares espetaculares, outros nem tanto, mas foi tudo de passagem. Foi o preço a pagar de fazer uma viagem tão grande em tão pouco tempo. Mas foi espetacular e não trocava esta primeira experiência por outra.

Ficámos em Estocolmo três dias, em casa de amigos locais, onde tomamos banhos em condições, sem o tempo contado, e comemos comidinha caseira. Bem bom. A viagem de regresso foi feita com um pouco mais de calma. Estivemos dois dias na Legolândia, em Billund (norte da Dinamarca), algo que aconselho vivamente para quem tem crianças pequenas e que também faz as delícias dos adultos. As reproduções de cidades feitas em lego, com todos os pormenores, deixam miúdos e graúdos de boca aberta.

Se ao menos coubéssemos lá dentro.

As restantes paragens maiores foram feitas em Bruxelas, Bruges e Paris. Nesta última cidade chegámos à noite, mesmo a tempo de ver a Torre Eiffel a brilhar e a piscar, para deleite do meu filho mais velho. O mais novo dormia profundamente. C’est la vie. Pernoitamos a cerca de 1000 metros da Torre Eiffel e no dia seguinte subimos ao topo da dita. Estivemos a manhã inteira na fila para comprar o bilhete e depois foram 15 minutos muito intensos lá em cima, com direito a birras e tudo. As crianças são malta que não sabe estar. Onde já se viu fazerem birras, em Paris, em plena Torre Eiffel? Enfim, descemos, comemos uma baguete e partimos. Au revoir… Paris!

E as crianças?

Portaram-se lindamente. Foram os verdadeiros heróis da viagem. Houve momentos de birras (acabei de contar uma acima), muito cansaço, muitos “mãããããe, tenho fome” e “quero sair”, mas na generalidade portaram-se muito bem. Nem nos nossos sonhos mais selvagens imaginámos que se portariam tão bem. Claro que houve truques — desenhos animados sempre a bombar enquanto estávamos “na estrada” — para mantê-los tranquilos.

Ajudou ter traçado um cenário pessimista e dantesco. Desta forma, tudo o que correu melhor do que o imaginado foi lucro. E correu tão melhor. Como uma vez disse não sei quem: “expect the worst and pray for the best”. Foi o que nos aconteceu. É esta a magia das crianças, estão sempre a surpreender-nos. Na maior parte dos casos é pela negativa, eu sei. Mas quando nos surpreendem pela positiva é tão bom. Obrigada, pequenotes. You rule.

E, pronto, foi isto. Espero que tenham gostado. Se tiverem gostado, e se a Diana deixar, talvez regresse com umas dicas fixes para viagens em autocaravana (tendo em conta a minha parca experiência).

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