Texto: Filipa Pinto da Silva

Manter os miúdos longe dos ecrãs pode ser tão dramático como declarar guerra a uma potência mundial. Porém, não é impossível. E se nos anos 80 víamos televisão como se não houvesse amanhã, hoje o mundo é outro. Filipa Pinto da Silva, do blog Slower, dá uma ajuda.

“Os meus filhos tinham 7 e 8 anos quando, ao regressarem a casa das férias grandes lhes disse que a televisão estava ‘avariada’. Há crianças que não ligam nenhuma à televisão e fazem outras coisas enquanto ela está ligada. Mas em nossa casa nunca foi assim. Bastava estar ligada para eles pararem à frente dela tempos infinitos. Até podia estar a dar tv shop que seria o mesmo. Por isso, quando um dia houve uma falha da operadora, em vez de ligar à assistência resolvi deixar rolar, ver como corria.

Fi-lo num momento de cansaço do braço de ferro com a televisão e também porque queria finais de tarde com mais brincadeiras do que sossego. E foi o que tivemos. Esse primeiro Inverno sem televisão marcou o início do amor dele pelos livros e, para ela, foi particularmente criativo, com uma produção intensiva de sapatos em feltro, pulseiras, carteiras de tecido e almofadas de peluche.

Claro que “quando é que a televisão fica arranjada mãe?” foi a ladainha dos primeiros tempos, mas gradualmente a televisão foi caindo no esquecimento. Habituamo-nos a tudo não é? E eles habituaram-se e perceberam que não ia haver ‘arranjo’ tão cedo. A mim, não me fez falta: raramente a ligava para assistir a algum programa quando eles estavam acordados – colavam-se imediatamente e eu não conseguia ver nada para maiores de 12 – e o que via eram sobretudo filmes, séries, documentários. Nunca fui de ver o jornal da noite.

Fui radical e, se para alguns este poderá ser um caminho difícil ou impossível, para mim foi o fácil. Na verdade, incluiu até batota. Isto para vos dizer que cada caso é um caso. Mais concretamente, cada casa é uma casa e o que serve a uma família não servirá a outra.

Este não é, por isso, um artigo com receitas universais de parentalidade. O que começou por uma compilação de dicas práticas para nos ajudar a sacudir os miúdos da barra da saia quando temos demasiadas bolas no ar ou precisamos trocar frases completas com outro adulto sem os colar num ecrã, acabou incluir também uma série de reflexões e algumas lições que os meus filhos me ensinaram nos últimos 10 anos. Aqui estão elas.

 Dar-lhes atenção

Parece um contra-senso não é? Mas atenção é uma forma de amor. Se os nossos filhos a tiverem regularmente e sentirem a nossa presença e amor, a tendência é para sejam mais seguros e independentes para explorar o seu mundo e brincar.

Ode ao tédio

Ajustar a nossa tolerância ao “não tenho nada que fazeeeeer” e deixá-los aborrecerem-se. Somos pais, não animadores do Clube Med. Um bocado de tédio nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário, promove a criatividade, autoconhecimento, iniciativa e tolerância à frustração. Se resistirmos à primeira e à segunda, à terceira vamos encontrá-los entretidos com alguma coisa.

Quem manda sou eu

Às vezes é tão simples como isto: a nossa casa, as nossas regras. Ou, os nossos filhos, as nossas regras. De preferência consistentes, que os miúdos são ratos à espera de uma brecha. Mas na verdade, quem tem o queijo e a faca na mão somos nós, certo? Em vez de reagir a cada situação, é bom pensar num plano realista para gerir o tempo de ecrã certo para todos. Desta forma, criamos também uma rotina, reduzindo os pedidos e birras fora de horas.

Facilitar a vida

Imagina que estás a tentar cortar no chocolate, mas tens a despensa forrada de toblerones. Não é impossível, mas fica bem mais difícil não é? Se queremos limitar o tempo de uso dos ecrãs, podemos começar por banir pelo menos alguns e tornar menos acessíveis os que ficam.

Walk the talk

Sabes quanto tempo passas à frente do computador, televisão, telemóvel? É importante perceber a nossa própria relação com os ecrãs e marcar o exemplo. Criar limites para eles não vai funcionar nunca se os nossos filhos nos virem sempre de telefone na mão ou em frente à televisão.

Para saber quanto tempo estamos ao telefone por dia recomendo a app Moment. Para optimizar o trabalho e tempo no computador, uso a app Pomodoro.

 Abrir portas

Se abrirmos as portas de casa aos amigos e vizinhos miúdos, é certo que não os vamos ouvir durante horas. E, além de entretidos, conhecemos os amigos deles e observamos de perto como se relacionam. Como bónus, a nossa passa a ser a casa onde os amigos se sentem bem. Um bolo para o lanche e somos a mãe mais fixe.

Aceitar o caos

A brincadeira vira a casa do avesso, faz nódoas na roupa e nódoas negras às vezes. Não há volta a dar. O caos é o caminho para brincar. No final, um clean blitz resolve quase tudo.

Rédea mais solta

Às vezes começam a brincar e acaba mal. Mas mesmo quando corre mal, brincar é um ensaio para a vida adulta. As crianças precisam de marrar, falhar e dar a volta sem a nossa constante intervenção e assistência. Ou pelo menos sem que a percebam.

Menos é mais

Cria espaços apetecíveis para a brincadeira, começando por dar uma volta aos brinquedos. Duplicados, partidos, incompletos vão à vida. Aqueles que são desajustados à idade, que foram brinde, que guardamos porque foram caros ou um presente, mas não têm uso, idem. Dispõe os que ficam de forma  acessível e bem rotulados. Repeat de 3 em 3 meses.

Apostar na simplicidade

O critério cá em casa é: se não consegue montar, brincar ou evoluir sozinha com um brinquedo é porque não é o brinquedo certo para a criança. Excepção feita à Falcon e as suas 90 páginas de instruções, que nos divertimos imenso a montar.

Privilegiamos em brinquedos simples, de qualidade, de pouca manutenção (adeus pilhas) e em materiais que já temos, como restos de têxteis, roupas velhas para disfarces, embalagens de cartão e consumíveis como tintas, barro, etc.

Vadiar

É o melhor antídoto! Apanhar ar, pôr o corpo a mexer, fazer um picnic, dar um salto ao jardim ou fazer uma caminhada na praia. As hipóteses são mil.

Caixinha das surpresas

Esta dica é de uma amiga e é tão simples como genial. Numa caixinha (ela usava uma de rolo de fotografias) guardar vários papelinhos com nomes de jogos e actividades escritas: cabra-cega, jogo do lenço, cartas, fazer um desenho, corridas ou qualquer programa que os miúdos gostem. Sempre que quiserem, é só fechar os olhos, tirar um papelinho e brincar.

Na rua

Levar sempre um baralho de cartas, lápis e papel. Melhor ainda, como me sugeriram, manter um saco na mala com alguns brinquedos que vamos rodando. O elemento surpresa faz maravilhas.

Nos restaurantes

Os dois pontos acima, ajudam a gerir miúdos em restaurantes sem recorrer ao telemóvel ou tablet. Escolher um restaurante espaçoso, com espaço ao ar livre, descontraído e com um serviço rápido são outros pontos a favor. Mas o ponto que mais faz a diferença é a nossa atitude. Não tentes ter um jantar a dois com miúdos atrelados. Nunca funciona.

Joga com os filhos que tens

Repara nas actividades que mais atraem o teu filho e promove-as. No caso dos meus, ele é dos que brinca bem sozinho. Bola, livros e legos e é feliz. Já ela, não brinca, faz coisas e de preferência com a atenção de alguém. Dar-lhe uma tarefa (como ainda ontem, encomendei-lhe um porta-chaves) ou envolvê-la em qualquer coisa que estou a fazer, é o melhor que posso fazer por ela.

Os melhores anos

Lembro-me dos primeiros meses em que fui mãe. Na altura, parte de mim queria que passassem a correr para voltar a dormir. Depois, que passassem a correr para conseguir usar a toalha de praia na horizontal, 10 minutos que fossem. Depois, que passassem a correr para poder usar a casa de banho sozinha. Depois, que passassem a correr para poder fazer um telefonema sem ser na hora da sesta. Depois, ler um livro sem ter de voltar ao início cada vez que pegava nele. Ou parar num semáforo sem que o choro do banco de trás me rebentasse os fusíveis. Ou alambazar-me num gelado sem o partilhar… Estão a ver, não é?

10 anos passaram desde aí. A correr, não. Num piscar de olhos. E não voltam. Se há algum recado que daria a mim própria há 10 anos seria qualquer coisa como isto: não queiras tudo ao mesmo tempo. Há uma estação na vida para tudo e estes são os melhores anos. Vai haver mais tempo para ti e noites de sono completas em todas as outras décadas. Aproveita a viagem e os nasceres do sol que esta te traz.

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