Texto: André Lapa
Fotografia: Joshua Coleman

O André tem dois filhos, um cão, e um blogue sobre parentalidade – o à Paisana. O blogue é pouco actualizado, mas na cabeça do André está sempre na iminência de ser relançado com constantes e espectaculares textos, portanto podem ir espreitar o “best of” do blogue em www.apaisana.com/bestof/, ou fazer like na página do Facebook, que ele não se importa.

 Durante muitos anos, sempre que ia a uma livraria, as secções assinaladas com ”parentalidade”, “puericultura”, “gravidez” ou “educação”, eram-me praticamente invisíveis. Lembro-me apenas de existirem algures entre os livros de categorias mais recônditas, tipo “Guias Práticos” (quase sempre sobre carros, relógios ou jardinagem) ou “Espiritualismo”, o que até faz algum sentido: ser pai é, ao mesmo tempo, um salto de fé e uma ocupação dos tempos livres estupidamente exigente e cara.

Naquela altura não percebia sequer que se justificava a existência de mais do que dois, ou três, livros diferentes sobre parentalidade. No entanto, hoje em dia, passados dois filhos, reconheço a sua utilidade. Por um lado, é bom poder aceder a informação sobre um assunto complexo como é o de garantir que um ser humano que não sabe tratar de si esteja alimentado, limpo e feliz grande parte do tempo – ou, no mínimo, dois dias por semana. Por outro lado, se não houvesse cada vez mais livros sobre parentalidade, deixaria de fazer sentido escrever-se livros sobre a necessidade de simplificar a parentalidade e os perigos de bombardear os pais com demasiada informação, que hoje em dia é um bom filão (mesmo que signifique bombardear os pais com mais informação).

Acredito mesmo que se recuarmos no tempo, até à altura do início da codificação da escrita, descobriremos que demorou pouco até terem aparecido os primeiros escritos sobre parentalidade.  Imagino um escriba sumério, com umas olheiras cavernosas, a interromper o registo diário sobre o carregamento de sacas de cevada para anotar: “5 dicas para o treino do sono de um bebé de 3 meses que zurra todas as noites como uma pileca enferma“.

Mas o que é que se anda a ler?

O meu registo de leituras parentais não é impressionante. Três livros em seis anos. Com o dobro desse número em livros abandonados. Mas a sensação que dá, pela quantidade constante de livros de parentalidade que vão aparecendo todos os anos, é que há imensos pais e mães andam a ler livros. Será bom sinal?

Depende, claro. Nos catálogos online da FNAC e da Bertrand contam-se cerca de 280 entradas sobre parentalidade, puericultura, gravidez e outras áreas relacionadas. É uma ínfima percentagem da quantidade de livros que existem sobre Política ou História. Mas quem achar que a parentalidade não é um tópico de discussão tão complexo (ou violento) como a Segunda Guerra Mundial, nunca perguntou num fórum de mães qual a melhor idade para deixar de amamentar um filho.

E o que lêem as pessoas sobre parentalidade? Olhar para as títulos dos livros mais vendidos é um exercício curioso, que nos ajuda a tentar perceber o que entusiasma os pais portugueses e o também que os apoquenta. Por exemplo, nos tops das vendas encontram-se vários livros relacionados com o sono (ou a falta dele) dos filhos (e dos pais).

A própria ordenação dos livros parece espelhar a evolução do estado mental de alguém cujo filho se recusa a dormir. Vejamos.

As noites começam a correr mal? Calma, alguém lembra que “Os Bebés Também Querem Dormir” (Constança Cordeiro Ferreira, Matéria Prima).

É uma pessoa orientada para prazos? Se calhar é preferível uma coisa mais específica, sobretudo para bebés procrastinadores, tipo “10 Dias Para Ensinar o Seu Filho a Dormir” (Filipa Fernandes, A Esfera dos Livros).

A seguir a isto assinala-se o tom passivo-agressivo de “Dorme, Bebé” (Eduardo Sá, Dom Quixote). Título que na minha cabeça se lê com os dentes cerrados e algum desespero.

A verdade dos livros sobre o “sono” é que a pessoa demora tanto tempo a conseguir lê-los, porque estamos cansados e não nos conseguimos concentrar, que quando chegamos ao fim o nosso filho já tem acne e dorme noites inteiras (até ao meio-dia).

O livro do meu especialista é mais grande que o do teu

O sono não é o único problema que um bebé pode trazer. Há bebés que ficam constipados durante dois meses seguidos, outros que têm urticárias que duram dois minutos. Por vezes também gostam de rolar da cama e cair ao chão, naqueles cinco segundos que os pousamos para poder apertar os sapatos.

Por isso também encontramos vários livros generalistas com respostas a vários assuntos e problemas. Estes são fáceis de identificar, a única dúvida é perceber se precisamos de um Grandes Livros ou se bastará apenas um Livro, mas isso depende do temperamento da criança e do optimismo dos pais.

Há o “Grande Livro da Grávida” (Marcela Forjaz, A Esfera dos Livros), o “Grande Livro do Bebé” (Mário Cordeiro, A Esfera dos Livros), e o “Grande Livro dos Medos e Birras” (Mário Cordeiro, A Esfera dos Livros). Também há um “O Livro da Criança” (Mário Cordeiro, A Esfera dos Livros) que é maior (e tem mais páginas) que “O Grande Livro da Criança” (T. Berry Brazelton, Editorial Presença), o que revela que a grandeza dos livro pode ter apenas a ver com ser o primeiro a chegar ao mercado.

Como seria de esperar, não há nenhum Grande Livro do Pai mas, menos mal, há um “Livro do Pai” (Ian Bruce, Editorial Presença). No entanto, para encontrarmos este livro temos de ir à secção de Psicologia, o que parece indicar que os pais são mais vistos como um caso clínico do que como um elemento que participa na “criação” do bebé. Havemos de lá chegar.

Este livros generalistas normalmente abordam várias questões relacionadas com a manutenção e sobrevivência do bebé (e dos pais), como alimentação, etapas de desenvolvimento ou lidar com doenças comuns. Mas quando o assunto é saúde, não faltam livros específicos sobre o tema.

Um dos mais populares parece ser “O Que os Pais Devem Saber de Pediatria” (Jorge Sales Marques, Editora Educação Nacional). Sendo escrito por um médico, e numa altura em que cada vez mais pessoas se automedicam e se autodiagnosticam através da Internet, confesso que acho surpreendente que o livro não tenha apenas uma página, com a seguinte resposta: “devem saber a morada do pediatra, porque só um médico que esteve dez anos a estudar é sabe mesmo de pediatria (e as avós, claro, que sabem tudo)”.

Dos livros que (não se) escrevem sozinhos à alimentação

Outro tema dominante nestas listas são livros de memórias e álbuns para registar recordações. Vários deles têm espaço para colocar mechas de cabelo, fotografias dos primeiros banhos e, às vezes, uns pequenos envelopes para guardar dentes de leite. O grande problema destes livros é quando a criança descobre, anos mais tarde, que os pais só preencheram a primeira página e depois perderam a paciência, e não arquivaram nem um único cabelo. Isto é mau, porque no futuro estes livro são óptimos para fazer chantagem quando eles começam a trazer amigos lá a casa. Ou até vudu, mas isso depende das dinâmicas das família.

Também parecem ser frequentes os livros de alimentação ou de receitas. Há um “Mãe, Quero Mais!” (Leonor Cício, Matéria Prima), cujo título parece implicar que os pais não cozinham ou que só as mães é que servem à mesa, duas assunções que me parecem condenáveis. Espero que estejam a planear a sequela “Filho, levanta o rabo e serve-te, porque aqui não há criadas”.

Encontramos também um “Faço Tudo por Ti” (Mónica Pitta Grós Dias, Verso de Kapa), que soa um pouco extremoso demais, devia haver limites, mesmo na cozinha, e outro chamado “Incríveis Purés Caseiros Para Bebés” (Lisa Marrangou, Editorial Presença), que soa um pouco entusiástico demais – quão incrível pode ser um puré caseiro? Sem tirar mérito a nenhuma destas obras, que admito não ter lido, creio que a junção das duas poderia dar um livro mais útil e, ao mesmo tempo, economizar espaço, com um título ainda melhor – “Faço Tudo por ti inclusive Incríveis Purés Caseiros para Bebés.”

Por fim, para quem acha que do estrangeiro é que vem tudo bom, podemos optar pela escola francesa ou dinamarquesa. De um lado temos As Crianças Francesas Não Fazem Birra (Pamela Druckerman, Vogais), do outro temos Pais à Maneira Dinamarquesa (Jessica Alexander e Iben Sandahl, Arena PT). Os dois livros são escritos por americanas que foram viver para fora, e vão comparando a experiência nesses países com o que se faz nos Estados Unidos. Nos EUA uma mãe pode ser presa por deixar um bebé três minutos sozinho num carro, portanto não admira que se impressionem quando vêm uma mãe francesa fumar o seu cigarro tranquilo, enquanto o filho come a areia imunda daquelas praias tristes que eles montam junto ao Sena.

E se uma americana viesse viver para Portugal, como descreveria os pais portugueses? Não sei. Talvez por viver aqui, e ler comentários nas redes sociais, acho tarefa quase impossível sintetizar as qualidades e as irracionalidades dos pais portugueses num “estilo”. Mas se tivesse de recomendar-lhe um livro relacionado com a parentalidade lusitana, é óbvio que recomendaria “Amãezónia”* (Diana Garrido e Rita M. Pereira, Arena PT). É o único livro sobre maternidade – que conheço -, que fala em cerveja, e logo na contracapa. As crianças portuguesas podem fazer birras, mas pelo menos temos noção das coisas importantes na vida.

*que apenas por incrível coincidência é o livro as autoras deste site incrível. E não digo isto porque me tenham oferecido alguma coisa, não me ofereceram rigorosamente nada. Nada. Mas ainda vão a tempo.

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