Texto: A mãe que continua a precisar de férias
Ilustração: Rita

As férias sem filhos são como um chocolate que de repente revela-se recheado de caramelo: uma maravilha. Pedimos a uma mãe de uma bebé de 19 meses que nos contasse como foram as dela.

“Tinham passado exatamente 518 dias sem dormir até decidir que precisava de uma noite de descanso. Sim, sou daquelas mães que tem uma filha que não dorme bem e que mesmo assim acha que tem de aguentar porque a filha é sua e não deve passar esse carma a outros. Por isso, aguentei. Foram muitos dias a esconder olheiras com maquilhagem e a segurar o mau humor para poder continuar a ter trabalho, amigos e a família do meu lado.

Foi quando comecei a sonhar com férias que achei que havia um corte a fazer e que já não podia mais ser adiado. Um mês antes de viajar para o outro lado do mundo, à distância de 24 horas de avião e uma escala, achei que era a altura de fazer o teste de pôr a miúda a dormir em casa dos avós, onde iria ficar 11 longos dias para os pais poderem fazer reset e voltarem cheios de energia e renovados. Só nessa altura, perguntam? Sim e foram só duas noites de teste… e não, não foram seguidas. O que significa que na verdade nunca tinha estado separada da minha filha 24 horas seguidas. É verdade, o cenário adivinha todo um drama.

Claro que nas noites em que ela não dormiu em casa, eu também não dormi. Acordei religiosamente às horas habituais e fui buscá-la sempre mais cedo do que o necessário pois estava cheia de saudades.

Estava longe de me mentalizar para a separação. E isso notou-se. Uma semana antes da partida a ansiedade apoderou-se de mim. Estava mal disposta, a disparatar com todos. Menos com a minha menina, que mimei até mais não poder.

Na véspera, deixámo-la com a avó. Separação rápida e sem dramas, que ela é esperta e podia adivinhar o que aí vinha. Fui para casa acabar malas e não deixei de pensar nela um segundo, com um nó na garganta permanente. Pensei em não ir, em ir buscá-la só para mais um abracinho, mas fui forte e segurei-me.

Quando o avião levantou voo, ainda segurei uma lágrima e pensei: Não vou aguentar e vou voltar mais cedo.

Quando aterrei do outro lado do mundo senti uma baforada de calor — foi a chapada para acordar. Uau, lembro-me desta sensação. São férias! E inexplicavelmente o meu cérebro fez clique. Claro, que liguei para casa logo que consegui para saber se estava tudo bem, mas a minha disposição mudou. E depois de ligar no segundo dia e ouvir “Sim, está tudo bem. Dormiu a noite toda”, chamei-lhe diabrete ingrato e decidi aproveitar as férias.

Liguei todos os dias, desisti do whatsapp com vídeo por achar que a perturbava e morri de saudades (e continuei a acordar todas as noites, apesar do fuso horário de 9 horas de diferença). Mas também consegui aproveitar. E muito.

Regressei renovada, com mais vontade ainda de aproveitar o tempo com ela e com muito mais qualidade. Por isso, neste tema polémico que é: férias com ou sem filhos? Eu digo sem vergonha: sem filhos, por favor.

PS.: Podem segurar os dedos nas teclas antes de atirar pedras. Claro, que guardei mais 15 dias de férias com a miúda, toda para mim.”

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