Texto: Ana Oliveira
Ilustração: Rita

Naquele dia, o Rodrigo não usou do seu andar trôpego e desequilibrado, próprio de quem tinha aprendido a andar há pouco tempo, para ir buscar o seu boneco preferido. Naquele dia, o meu filho gatinhou da sala até ao hall, onde o peluche estava caído. E naquele dia o Rodrigo não fez outra coisa que não gatinhar para se movimentar para onde queria. Ele, que estava com um ano e três meses, e que já andava, naquele dia não o fez. Não o fez nesse dia, nem no seguinte, nem depois, nem no outro… Pensei que poderia tratar-se de preguiça, ou que teria apanhado um susto e que estava com medo de se pôr de pé, mas pensei por pouco tempo. Porque no mesmo dia em que o Rodrigo deixou de andar, deixou também de falar. Todas as palavras e pequenas frases que já ia dizendo, não as disse. E não as disse nesse dia, nem no seguinte, nem depois, nem no outro…

Já estava habituada a alguns retrocessos no desenvolvimento do meu filho. Prematuro de 27 semanas, em resultado de uma gravidez gemelar em que o outro bebé precipitou o parto, não sobrevivendo, o Rodrigo travou desde a nascença uma enorme batalha para viver num mundo para o qual ainda não estava preparado para entrar.

Foram três meses nos cuidados intensivos e três meses de avanços e recuos. Nesses primeiros tempos, a prematuridade e as suas eventuais sequelas eram uma preocupação, e era habitual que se verificassem alguns retrocessos. Mas o deixar de andar e de falar de um momento para o outro assustaram-me muito e algo me dizia que não estava perante, apenas, mais uma “marcha atrás”.

O diagnóstico não demorou muito tempo a chegar. Tratavam-se de sintomas relacionados com autismo, associados a um outro que até então não havia valorizado muito. O Rodrigo tinha comportamentos obsessivo-compulsivos: fazia constantemente razias a paredes, muros, etc… e era obcecado com números e contagens.

Portanto, com um ano e pouco, o Rodrigo foi diagnosticado com Perturbação no Espectro do Autismo (PEA). A equipa médica que o acompanha dizia que estaria num nível ligeiro e que a intervenção precoce seria fundamental para que os sintomas não se agravassem.

Apesar da aparente “ligeireza” do caso, cai-nos o chão. E foi essa a sensação que tive. Um enorme receio de que ele nunca conseguisse ser autónomo, de que fosse gozado pelos colegas, enfim… que não fosse feliz. Por esses dias dei por mim mergulhada numa tristeza imensa e… na Internet, para tentar que o Google fosse o meu psicólogo de serviço. “Tenho um filho autista… e agora?”

Não foi fácil receber este diagnóstico, mas nem houve muito tempo para ficar a chorar no escuro, porque a ideia dos sintomas poderem agravar era absolutamente assustadora. Era preciso agir e demos logo início a sessões de terapia ocupacional e terapia da fala, com acompanhamento psicológico, aliado a medicação que ajudava o Rodrigo a controlar melhor a sua impulsividade e agressividade. As birras dos três, quatro anos, eram desesperantes e assustadoras, com ele muitas vezes a magoar-se a ele mesmo. A medicação, que ainda hoje mantém, veio solucionar essa parte.

Mas essa fase foi para mim a mais infernal. Vê-lo sempre zangado, infeliz, agressivo… deixava-me muitas vezes a chorar, já sem ter a certeza se a batalha estava a seguir a estratégia certa. E houve momentos em que pensei que o Rodrigo nunca iria ser uma criança normal e que a nossa vida ia ser sempre assim, descontrolada, com gritos, caótica!

Mas, como referi, a medicação resolveu essa parte. E outros progressos foram acontecendo. Voltou a andar, voltou a falar, deixou de ter obsessões, a agressividade foi controlada, e o diagnóstico de PEA passou para “Comportamento Social Autístico”.

Hoje o Rodrigo está com nove anos, está no ensino especial porque mantém algumas dificuldades em concentrar-se e também ao nível da motricidade fina. Tem apoio psicológico semanal e apresenta alguns problemas na relação social com os da sua idade. Dificuldades estas que também têm tido uma evolução surpreendente. O Rodrigo é um “dado” e mete conversa com toda a gente.

Sinto claramente que foi uma luta ganha e sei que ainda há mais vitórias para acontecer. As próximas metas são que deixe o ensino especial (que consiga, por exemplo, fazer os testes do mesmo tamanho e com o mesmo tempo de outros alunos, sem ajuda nos enunciados) e a redução gradual da medicação, que é um estabilizador de humor, Risperidona.

Hoje, o autismo não tem o peso que teve na altura em que me disseram que ele o tinha. Também pela boa evolução do caso. E, não quero ser julgada por dizer isto, mas o que eu sinto é que o autismo torna-o ainda mais especial.

O diagnóstico precoce e a intervenção imediata foram, sem dúvida, a chave para este “milagre”. O Rodrigo consegue ter autonomia e capacidades cognitivas para levar uma vida quase normal e é uma criança muito feliz!

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