Joana Marques
Joana Marques e o Goucha lá atrás

Joana Marques faz o programa da manhã da Antena3, é guionista, autora e apresentadora do programa “Altos e Baixos“, é autora do livro “O meu coração só tem uma cor” e mãe do Xavier. Pedimos-lhe que explicasse como era a vida antes de ter o filho, como é agora e como a imagina no futuro. E que se fotografasse especialmente para nós.

A.X. (Passado)

Agora a minha existência divide-se em A.X. e D.X. Antes de Xavier e depois de Xavier. Não que queira comparar o meu filho a Cristo, atenção. Ao contrário de muitos pais que vemos por aí não desejo que ele seja famoso! Quando temos filhos somos como que sugados para dentro de um daqueles bizarros anúncios de “antes e depois”. E não me refiro apenas ao nosso aspecto físico: antes com abdominais bem definidos (nunca aconteceu) depois com uma barriga que faz com que as pessoas perguntem se já estamos à espera de um irmãozinho/a.

Antes de ser mãe a minha vida era uma loucura! Não era nada, estou a gozar. Era uma vida tão pacata como a daqueles alentejanos das anedotas, que passam os dias à sombra de um chaparro. Só que sem a parte do chaparro. E o pior é que eu achava que tinha uma vida agitada e com falta de tempo. Porque tinha muito trabalho. Pois tinha. Até tinha. Fazia rádio de manhã, trabalhava como guionista, gravava um programa de TV todas as segundas à noite, alinhava numa data de outros projectos que iam aparecendo. Mas depois chegava a casa e ficava longos minutos a apreciar o silêncio. E esticava-me no sofá. E fazia maratonas de televisão. E se não me apetecesse jantar não jantava. E se, de repente, às onze da noite, afinal me apetecesse, mandava vir uma pizza. Improvisava. E saía de casa em cinco minutos, se me desafiassem para um qualquer programa: bastava levar a chave de casa e o telemóvel. Ah, e era sempre eu a usar o meu telemóvel, não havia cá dedos gordos e cheios de papa a fazer scroll down. E viajava muito, sempre que podia. Califórnia de carro, Japão de comboio, Cambodja de burro (uma destas foi inventada, tenho a certeza que não descobrem qual). E as saídas à noite?!!? Zero. Nunca gostei. Os meus amigos insistiam muito. Assim que acabava o jantar lá vinha a conversa do costume e aquela tentativa de me convencerem, com a mesma insistência com que os políticos tentam evangelizar pessoas em feiras. Diziam que eu parecia uma velha, e que não havia motivos para não ir.

D.X. (Presente)

Agora já tenho um motivo para não ir… só por isso valeu a pena ser mãe! Há quem veja nos filhos uma perpetuação da família, um prolongamento dos pais, um legado para o futuro… Tudo muito poético, sim senhor, mas o que mais vejo no meu filho, por enquanto, é um excelente pretexto. “Adorava ir a essa festa da espuma, parece-me uma proposta muito divertida, mas infelizmente tenho de ficar em casa com o Xavier”. A verdade é que agora, sempre que chega a sobremesa num jantar com amigos, já ninguém tenta persuadir-me a ir a lado nenhum. Porque eles também já não vão. Na melhor (ou pior) das hipóteses vão buscar os filhos a casa dos avós. Em termos de fuso horário pouco ou nada mudou na minha vida. Sempre gostei de acordar cedo, e a partir das sete da tarde já estou cheia de sono. No fundo o que me faltava era um filho para justificar estes comportamentos que os outros olham com desdém.

O resto, de facto, mudou ligeiramente… A vida que tínhamos antigamente parece agora uma miragem, ao mesmo tempo que parece absurdo que já tenhamos vivido sem este terceiro elemento que agora faz parte da família. Olho para as fotografias antigas e sinto falta dele, mesmo sabendo que era impossível ter estado lá, já que só nasceu em 2016. Não foi má vontade, como eu, quando não queria ir ao Lux. Foi mesmo impossibilidade de comparecer.

Se tivesse de fazer um top 3 das maiores diferenças entre a era Pré e Pós parto, seriam estes:

1 – Tempo. Agora sim, não tenho tempo. Acho eu. Porque continuo a ter todo o trabalho (e até mais) do que tinha antes, mas adicionei-lhe uma carga de trabalhos. Se calhar daqui a dez anos, quando tiver 5 filhos (Deus me livre!) vou concluir que quando tinha só um era uma autêntica dondoca, cheia de tempo entre mãos.

2 – Logística. Acabou-se o improviso. Agora tenho de fazer um guião também para a minha vida, como se não bastassem já todos os outros… Para sair de casa é preciso um pré-aviso de meia hora, para dar tempo de fazer um levantamento exaustivo de todos os itens a levar, mesmo sabendo que vou sempre esquecer alguma coisa importante…

3 – Televisão. Esta é capaz de ser a única alteração que não previ. Eu já sabia que ia ter menos tempo, acordar mais vezes a meio da noite ou levar mais tralha para férias. Mas se me dissessem que ia deixar de ver televisão diria que estavam loucos. E que iria ficar louca com essa abstinência, também. Na verdade foi um processo muito simples, quando dei por mim já tinha curado o vício. Inicialmente foi porque tinha de andar sempre de um lado para o outro, entre esterilizar biberões, fazer sopa ou tentar adormecer um bebé. Parecendo que não, dá pouco jeito fazê-lo com uma televisão às costas. Agora que já não há recém-nascidos em casa e já não reina o silêncio, a televisão foi ocupada coercivamente pelo Canal Panda e eu nem ofereci grande resistência, porque entretanto tornei-me adicta de podcasts. Digamos que é a minha metadona.

Reforma antecipada (Futuro)

São as duas palavras mágicas que me guiam: reforma antecipada. Porque apenas férias já não chega. Tive este verão as primeiras férias a sério com uma criança (o ano passado era um bebé de seis meses, não conta, é como levarmos um peluche), e estava ansiosa por regressar ao trabalho e, enfim, descansar. Já sei (escusam de dizer!) que os próximos verões serão piores, porque ele vai correr mais, saltar mais, gritar mais, tentar fazer mais amizades com os miúdos do toldo do lado (raios parta, porque é que o miúdo não saiu anti-social como a mãe?)… E é precisamente por isso que já sonho com a reforma. Para poder ter 25 anos outra vez, mesmo que tenha 67 (estou a ser optimista, está-se mesmo a ver que até lá mudam a idade da reforma para 82). Aí é que vai ser: comer pizza todos os dias, ver a televisão toda que quiser e até, quem sabe, fazer finalmente aquela viagem pelo Cambodja, de burro. Ah, e se tudo correr bem, nessa altura já parei de chamar ao Xavier “bebé da mãe”, coisa que nunca pensei fazer, e que muito me envergonha, mas que não consigo evitar.

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