adotar em portugal
Ana Kotowicz, toda bonitona

Entrevista: Diana
Fotografia: Pedro Azevedo

Adotar em Portugal não é fácil mas agora já há um guia que ajuda os futuros pais em todo o processo. Podem pular de alegria e agradecer à Ana Kotowicz, de 43 anos, jornalista, pessoa que me ensinou quase tudo sobre jornalismo e autora do livro “Adotar em Portugal: Um guia para futuros pais”, da editora Livros Horizonte (e do maravilhoso “Reis Procuram Príncipes, livro infantil). Ana – Koto para os amigos – adotou duas irmãs, de 6 e 7 anos, juntamente com o marido, Paulo, também jornalista, e finalmente tem a família completa. Vocês não sabem, mas a Koto nasceu para educar.

Depois de uma “imensa gravidez invisível”, como escreveu para o Amãezónia em 2016, finalmente tem a família completa. Durante o processo de adoção, sentiu falta de um guia e decidiu escrever um. E conversou connosco sobre as filhas, o processo e o livro.

Sempre quiseste ser mãe?

Mais do que mãe, sempre quis ser educadora. Ideias que temos antes de a maternidade nos morder no rabo… Só na pré-maternidade é que temos imensas certezas absolutas e achamos que vamos ser  assim ou assado. Por isso, eu achava que ia ser uma mãe fantástica, com uma paciência inquebrável, que só ia fazer refeições saudáveis, e que nunca ia perder a paciência. Também ia fazer todos os jogos, ler todos os livros, fazer todos os passeios.

Hoje que já sou mãe, ninguém me engana com o lado romântico. A maternidade tem muito mais momentos terríveis do que maravilhosos. Só que o maravilhoso é tão maravilhoso que o resto desaparece. Fica só aquela sensação de felicidade. Logo a seguir, há uma nova birra e tu cais das nuvens. Agora, quando penso que tenho duas crianças para educar, e que tenho de fazer o melhor que sei para ajudá-las a encontrar o melhor de si, entro um bocado em pânico. Não tenho uma única certeza e dou muito mais valor à mãe que tive. Devia ter-lhe dado mais beijos.

E a adoção era um objetivo?

Quando era adolescente vi um documentário sobre a Josephine Baker e a sua tribo do arco-íris. Ela adotou 12 miúdos de nacionalidades diferentes e parecia uma história linda. Não era, mas naquela altura só vi o lado romântico. O resto descobri depois.

Apesar de a ideia de adotar estar lá, só depois de vários anos a tentar engravidar, coisa que nunca aconteceu, começámos a falar sobre adoção. Foi preciso um diagnóstico de infertilidade e uma inseminação artificial para decidirmos que o caminho do laboratório não era para nós. A experiência foi horrível e depois de os dois embriões que chegaram a estar dentro de mim não se terem tornado crianças de carne e osso, a adoção voltou a ser discutida. Houve muitas incertezas, mas lá chegou o dia D e atirámos-nos de cabeça com o mesmo medo de quem se atira de uma falésia para o mar sem saber se ali há rochas. Não havia e estamos os quatro inteiros e felizes.

Quanto tempo demorou o processo?

A resposta mais direta, e a que para mim faz mais sentido dar, é dois anos. Em Dezembro de 2015 a nossa avaliação, feita pela Santa Casa da Misericórdia, chegou ao fim e ficámos aptos para ser pais, como se diz na tropa. No mesmo mês, dois dias depois do natal de 2017, o telefonou tocou. Dois anos certinhos.

Mas há vários tempos diferentes e, se pensar bem nisso, o processo — enquanto ‘coisa’ — demorou muito mais. O primeiro tempo, o nosso, foi de quase um ano. Entre tomar a decisão e entregar mesmo, mesmo os papéis demorámos imenso. Passamos esse tempo a tomar decisões, a mudar de opinião, a ter incertezas, e a fazer o luto da infertilidade. Depois, um dia, mesmo no final de 2013, escrevi um email, ao cuidado do serviço de adoção, que dizia assim:

“Ex. mos senhores,

Junto envio ficha de inscrição para a Sessão A de modo a poder dar início ao processo de adopção.

Melhores cumprimentos.”

E estava feito. No momento em que carreguei no “send” foi como se tivesse começado a corrida dos espermatozóides. Ainda esperámos um bocado pela Sessão A — sem ela não te podes inscrever como candidato — e ainda demoramos, por culpa nossa, mais uns meses a ir entregar a candidatura. Isso aconteceu no Verão de 2014, na véspera de Santo António, exatamente no mesmo dia em que, um ano antes, deixamos o nosso material genético num laboratório, para ver se ele se transformava em filhos. Acho sempre piada a estas coincidências. A partir daí tínhamos de ser avaliados em seis meses, e fomos. Conclusão: a ideia nasceu em 2013, fomos pais em janeiro de 2018. Cinco anos.

Quando te ligaram para conheceres as tuas filhas, o que disseram exatamente?

“Olá, temos aqui duas manas.” A partir daí não me perguntes o que disseram porque eu não me lembro. Foi um vulcão a entrar em erupção. Foi como nos filmes, pulei, fiz a dança da felicidade e ri-me que nem uma perdida.

Qual era o teu estado de espírito?

Eu estava meia a dormir. O natal tinha sido há dois dias, nós estávamos de férias, completamente relaxados. Nesse natal, pela primeira vez em muitos anos, não quis fazer a árvore. Tinha um feeling tão grande que já íamos passá-lo com elas, que a desilusão não me deixou celebrar. E depois? Toma lá disto para acordares. Estava a beber a primeira chávena de café do dia, no quarto dos brinquedos, onde me ia sentar muitas vezes a pensar quando estaria cheio de filhos.Fiquei em choque e fui acordar o Paulo. Pulei para cima dele, ele estava ferrado no sono, eu a dizer os nomes delas, e ele só resmungava e dizia para parar com  brincadeira que queria dormir. Levou uma eternidade até perceber que eu estava a falar verdade.

O que sentiste quando as viste e como foi a reação delas?

A imagem está congelada dentro de mim. Se fosse boa a desenhar, conseguia pintar um quadro com aquele momento. Elas estavam a andar de baloiço, num parque, e eu estava cheia de medo que elas fugissem de nós, que fossem tímidas, que reagissem mal.

Elas olharam para nós, nós ficámos petrificados — para não as assustar — e depois a cena passou a ser em slow motion. Elas a saltarem dos baloiços, elas a correrem para nós, elas a atirarem-se ao nosso colo. E volta à velocidade real, com elas a gritarem: “Mãe, Pai.”

Depois de as conheceres, não as levaste logo para casa. Como te sentias quando tinhas de as deixar?

Era horrível. A integração durou 15 dias e o ritual repetia-se. Passávamos o dia com elas, jantávamos e quando íamos deixá-las na instituição já iam de banho tomado e pijama. É muito duro. Mas é necessário ou, pelo menos, quero acreditar que sim. Não podes de um dia para o outro arrancar duas crianças, que já passaram por muita coisa, do sítio onde estavam a criar raízes. Para todos os efeitos, nós somos dois adultos desconhecidos.

Qual é a parte mais difícil hoje em dia?

Chegas a um momento em que entras em velocidade cruzeiro. Eu acho que é quando o amor acontece. Ao início há muita coisa, muitas emoções, muita predisposição para nos adotarmos uns aos outros, mas leva o seu tempo até criarmos laços — aquilo a que chamam vinculação. Essa é a parte em que a adoção é muito diferente da maternidade biológica. Hoje em dia as nossas dificuldades são as mesmas que em casa da Amãezónia. As discussões das duas, a birra para entrar no banho, a birra para sair do banho, os amuos porque o jantar não vai ser chocolates com melancia e batatas fritas, as crises de choro porque têm de vestir calças quando o que queriam era um vestido, e o revirar de olhos da mais velha, que tem sete anos e já tem trejeitos de pré-adolescente.

Elas falam dos pais biológicos?

A mais nova, não. Não se lembra deles. A mais velha, sim. Com frequência. As conversas vão sendo cada vez mais espaçadas e tudo parece estar a ficar mais arrumado na cabeça dela. Também já consegue verbalizar as coisas com outra maturidade e dá-me ideia de que começa a perceber melhor as suas próprias memórias. Sabes? Quando de repentes te lembras de uma coisa de quando eras pequena e dizes: “Espera lá, quer dizer que naquele dia os adultos estavam todos bêbados, não estavam só divertidos a dançar Duo Ouro Negro…” E faz-se luz sobre aquela memória. Acho que isso acontece com a mais velha. Respondo a tudo o que posso, a tudo o que sei, e sempre com o cuidado de o fazer sem diabolizar ninguém.

Quanto tempo demoraste a escrever o livro?

Muito mais tempo do que devia e nem sei como é que a Livros Horizonte não desistiu de mim. Foram dois anos. Passei muito tempo à procura de quem quisesse falar comigo, a recolher informação e a fazer entrevistas. E quando estava pronta para começar a escrever, recebi o telefonema. Como era ingénua achei que ia conseguir escrever durante a licença de maternidade. Nem uma linha… Só quando elas foram para a escola é que voltei a ter tempo. Por isso, tempo útil deve ter sido à volta de um ano, sempre a ter de conciliar com o tempo que passava a trabalhar. E como sabes, ser jornalista é uma profissão com horários complicados. Se não estivesse a fazer mais nada, acho que tinha conseguido fazê-lo em seis meses.

Sentiste falta de um guia assim durante o teu processo?

Muita falta. Encontrei coisas muito técnicas, muitos guias da Segurança Social — aliás, bem podiam fazer uma compilação do que têm — e como não encontrava nada que me enchesse as medidas, fui à procura do outro lado do Atlântico. Brasil e Estados Unidos têm muita coisa que vale a pena ler.

Para ti, qual é a coisa mais importante que é preciso ter em conta quando se vai adotar?

A criança. Tudo é feito tendo em conta o superior interesse da criança e é preciso dizer isto tantas vezes quantas as necessárias para as pessoas perceberem. Eu sei bem o que é o desespero da espera, mas esperar numa instituição por pais é bem pior. Quando ouço pessoas muito revoltadas a dizer que estão há muito tempo à espera, penso sempre: “Hey, isso é bom sinal. É sinal que não há assim tantas crianças arrancadas aos pais biológicos, que não sofreram antes de ter uma nova família.” E fala-se muito em apressar processos, do lado da espera dos candidatos, e acho isso um disparate pegado. Se o tempo se esgotar e não houver criança, faz-se o quê? Rouba-se uma? Outra coisa que é fundamental: não há direito a adotar, há o direito da criança a ter uma família. Quando uma criança entra no sistema, com medida de adotabilidade, ou seja, à espera de nova família, procuram-se pais para a criança. Os melhores possíveis que se conseguir encontrar entre todos os disponíveis. Não é quando um casal entra no sistema que se vai à procura de uma criança que se adapte ao perfil que eles desenharam. É preciso mudar a perspectiva com que muitas pessoas olham para a adoção.

Que conselho gostarias de ter recebido?

O melhor que recebi foi: “Vai ser difícil.” Todas as vezes que nos disseram isso durante o processo, todas as vezes que ouvi isso da boca de outros pais, ajudou-me. Acho que fiquei com uma consciência tão clara quanto é possível de que a viagem ia ser atribulada. Isso não faz com que as coisas sejam mais fáceis, mas ajudam-te a ter força para enfrentar a tempestade.

De todo o processo qual foi o pior momento?

O pior momento é quando temos de dizer o que aceitamos e não aceitamos no nosso futuro filho. Raça, etnia, idade, sexo — essa é a parte fácil. Essas são trigo limpo. Mas depois começam a ler-te uma lista de características e de doenças a que tens de dizer sim ou não. Deixou-me incomodada. De cada vez que dizia não, era como se estivesse a olhar para um miúdo real a dizer “tu não porque tens trissomia 21”, “tu não porque és seropositivo”, “tu não porque foste vítima de abusos sexuais”. E às tantas estás a responder a coisas que nem sabes o que são. Lembro-me de perguntar o que era uma cardiopatia e o que é que isso implicava, por exemplo.

Falam-te em crianças com problemas comportamentais e lembras-te das gémeas do Shining e imaginas um filme de terror. E não é nada disso, e as pessoas não têm de saber tudo. Acho que os candidatos deviam ser mais esclarecidos sobre estes assuntos.

Como foi quando elas foram para casa definitivamente?

Durante a integração, foi a lua-de-mel. Aqueles 15 dias foram de sedução de parte a parte, queríamos todos muito gostar uns dos outros. Quando finalmente ficaram em casa, começou o terror. Tudo o que eu dizia faziam ao contrário, tudo era motivo para discutir e negociar, estavam a tentar ao máximo, as duas ao mesmo tempo, perceber até onde é que podiam ir, quais eram as regras da casa e o que acontecia se as violassem a todas de uma vez. Durante um mês foi a descida aos infernos. Como é que uma coisa que desejaste tanto pode ser tão difícil? E, como disse há pouco, ter ouvido isso, “vai ser difícil”, mantinha-me com os olhos na bonança. Um dia, por magia, aconteceu. Não acabaram as birras e os dramas e os gritos, porque as minhas filhas são duas guerreiras, têm baldes de carácter e de personalidade e já me imitam no mau feitio. Mas passou a ser na quantidade normal. Aliás, sempre ouvi dizer que se deve suspeitar da família em que a criança não faz birras. Os filhos estão aqui para nos infernizar o juízo, e não estavam a fazer a parte deles do acordo se não o fizessem. Mas ao mesmo tempo elevam-nos a níveis de felicidade que antes não sabíamos sequer que existiam.

Autor

Os comentários estão fechados.