Fotografia: Luma Pimentel

Texto: Diana

Confiar em bebés é como acreditar que o crocodilo não nos vai morder só porque é pequenino. Lembro-me quando a minha filha mais nova era uma bebé fixe. Dormia, era calma e pacífica, um anjo de criatura. Lembro-me como se fosse hoje – foi há uma semana. Com os dois meses de vida tornou-se um ser que à hora das bruxas é possuída por um espírito maligno que lhe abana os braços e as pernas descontroladamente como se repente estivesse a dançar ao som do primeiro álbum de Marilyn Manson, mas com uma estranha noção de ritmo.

Ela chora, berra, fica vermelha como aquele miúdo espanhol do livro do Asterix que prendia a respiração quando não lhe faziam as vontades. Abre aquela boca desdentada e aqui vai disto, uma dose insuportável do pior som para a humanidade no geral e para mães em licença de maternidade em articular: o choro de um bebé.

Ora o choro do bebé foi concebido para que os homens das cavernas não se esquecessem das suas crias, nem quando mudavam de gruta, nem quando eram horas de os alimentar. Havia muitos perigos e o instinto de sobrevivência sempre foi mais forte.

Hoje em dia esse instinto continua bem vivo e o é cérebro incapaz de lidar com o choro de um bebé de forma racional. Aquele som horrível faz disparar um alarme desesperado que grita: cala-me isso imediatamente, dá-lhe tudo o que ele quiser.

Acontece que às vezes os bebés não querem nada em especial, apenas berrar porque estão enervadíssimos e obrigar os pais a pegar-lhes ao colo e a nunca parar de andar, nem um segundo, sob pena de mais gritaria. Ser bebé deve ser horrível para eles mesmos, mas ao menos não se vão lembrar de nada. Já eu temo cada tarde como tenho pavor de uma praga de gafanhotos.

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