Fotografia: Daiga Ellaby

Brincar tem que se lhe diga. Há brincadeiras com bonecos, com bolas e desporto no geral, há acrobacias, jogos e puzzles, pinturas e colagens, construções e afins. Seria de esperar que todos os miúdos os soubessem (e quisessem) fazer, mas não é bem assim. Há crianças que não sabem brincar sozinhas, não dando aos pais aqueles momentos de descanso tão bom que todos precisamos.

Em vez de se entreterem sozinhos com todas as coisas que têm no quarto, querem que nós os acompanhemos – coisa que não nos lembramos de os nossos pais terem feito connosco. Mas então porque raio isto acontece? Maria Portugal, psicóloga infantil, explica.

A capacidade para brincar existe desde sempre. O bebé brinca quando faz bábábábá continuamente, brinca-se ao esconde-esconde, ao está – já não está, desde muito cedo.  Brincar é uma experiência não utilitária, rege-se pela espontaneidade e autenticidade de quem a faz e no prazer que provoca. Para a criança, o brincar é fulcral pois é assim que experimenta o mundo, porque para as crianças, agir, pensar e fantasiar, não sendo a mesma coisa, são inseparáveis. E esta “aprendizagem” através do brincar dá lugar ao sentir e ao reflectir, tão importantes para a vida.

A brincadeira exige reciprocidade? Sim, no sentido em que é o prazer de brincar com o outro que vai dar lugar ao prazer de brincar sozinho. Sim, porque eu só consigo brincar sozinho porque sei que existe um outro com quem poderei brincar. É como se precisássemos de aprender a brincar com outro para podermos brincar depois sozinhos.

Então é preciso brincar sempre com as crianças /com os nossos filhos?

Sempre não, mas às vezes sim. Só que este às vezes tem de ser autêntico. Tem de haver essa vontade de brincar e não tem necessariamente de ser a brincadeira que a criança escolhe, podemos juntos criar a nossa brincadeira, adaptando-nos um pouco ao que a criança gosta e fazendo com que ela se adapte também. Em suma, brinco quando me apetece mesmo brincar, ao que me apetece mesmo, porque gosto mesmo de brincar, se não não é brincar, é fazer uma actividade ou outra coisa qualquer! E este último ponto do gostar é muito importante: os adultos precisam de ser capazes de brincar para que as crianças sintam que têm permissão (inconsciente) para o fazer também. Podem ser brincadeiras de adultos (anedotas ou piadas, jogos) e até solitárias para que a criança perceba que também se brinca sozinho.

Assim, o que distingue o brincar é o facto de ser autêntico, na espontaneidade do sentir, no prazer que traz. Isto significa que para brincar é necessário estarmos disponíveis (para o fazer), e estar disponível é ter os nossos problemas suficientemente tranquilos para que eles intervenham o mínimo possível naquilo que estamos a fazer, e na nossa relação com os outros.

Nas alturas em que não temos esta disponibilidade para brincar, o que fazer? Quando é preciso entregar um trabalho urgente, arrumar a casa, cuidar do bebé e os filhos não nos largam?

Como já foi dito antes, quanto mais se brinca (com o filho e sozinho) nas alturas em que se está disponível, mais a criança terá a capacidade para brincar sozinha e melhor vai compreender quando lhe dizem: “ Agora não posso brincar contigo, tenho outras coisas para fazer”. É importante ter atenção ao que se diz, não dizer, por exemplo: “quando acabar isto (ou) depois vou brincar contigo”, quando não se tem a certeza de que isso vá acontecer.  A criança vai estar todo o tempo na expectativa de brincar com o outro, tem uma noção do tempo diferente da nossa, e terá mais dificuldade em auto-regular-se e organizar a sua brincadeira sozinha pois vai estar simplesmente à espera desse “depois” em que vão brincar com ela.

Geralmente, “brincar aos crescidos” é muito entusiasmante e uma ideia que pode resultar, dependendo da personalidade da criança e da tarefa que têm em mãos: arranjar brinquedos semelhantes ao material que temos para a casa: vassouras, panos, esfregonas, esponjas, baldes, panelas, legumes (de brincar), frascos, colher de pau, etc.

Podemos sugerir: “Agora não posso brincar contigo, tenho de arrumar a casa. Vais ter de ir para o teu quarto/sala/jardim brincar sozinho. Se quiseres podes fazer como a mãe/pai e brincar às cozinhas/ às arrumações.” Pode-se até inventar em conjunto um nome para esta brincadeira e evocá-lo cada vez que for preciso.

O mesmo é possível quando há um irmão pequeno. Arranjar um boneco/bebé e todos os apetrechos semelhantes aos do irmão: biberão, fraldas, panos, roupa, alguidar para dar banho, um sabonete só para ele, uma toalha só para ele. “Agora vou precisar de estar um pouco com o teu irmão: mudar-lhe a fralda, dar banho, dar de mamar, etc. Não vou poder brincar contigo mas se quiseres podes aproveitar para cuidar do teu bebé e fazer como a mãe.”

Quando nada disto resulta, recorrer às actividades: cadernos de actividades ou para colorir, jogos.

O mais importante é:

    • Brincar sempre que é possível, sempre que estamos disponíveis (só assim é que a criança vais ser capaz de brincar sozinha)
    • Dizer sempre a verdade
    • Não criar falsas expectativas (o prometido é devido!)
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