Texto e Ilustração: Rita

Quem não sonha com uma maternidade como a que vem nos livros, que parece fácil e super fixe? Durante uma conversa telefónica do tipo terapia-parental, descobri que sempre fui uma mãe calma até ao momento em que, bem, fui mãe.

Mãe calma: Acaba de ter o seu primeiro bebé, o mundo é lindo e às flores, está um pouco abalada pelo parto mas os livros prometem uma vida de sonho;
Mãe em polvorosa: O bebé berra, não dorme, o corpo está esquisito e cansado, dores em todo o lado, o que parecia fácil e lindo afinal é difícil e não está lá ninguém a ajudar;

Mãe calma: Corre tudo sem sobressaltos, a licença de maternidade não é propriamente um período de férias mas o bebé ajuda e dá para manter um sorriso no rosto apesar das cólicas;
Mãe em polvorosa: Como se já não bastasse o bebé não mamar e ter cólicas durante períodos intermináveis, ter de ouvir os palpites das pessoas a dizer o que é o melhor para ela e para o seu bebé é a cereja no topo do bolo. Engole vários sapos e chora quando está sozinha  (Mas hey, não estás sozinha!);

Mãe calma: O bebé é um santo, ri-se a toda a hora e faz sestas incríveis que dão tempo para fazer alongamentos, tomar um banho de imersão e passar um hidratante na pele.  Devia ser sempre assim;
Mãe em polvorosa: As sestas do bebé são mais curtas que o flash de uma máquina fotográfica, não há tempo para tomar banho e com sorte os dentes lavam-se ao pôr-do-sol. Mas quem é que teve esta ideia? 

Mãe calma: Deita o seu bebé às 20h e ele dorme até às 8h da manhã. Nos dias maus chora à meia-noite porque perdeu a chucha;
Mãe em polvorosa: Levanta-se de 20 em 20 minutos acordando precisamente no momento em que acabou de cair no sono profundo porque a criança não consegue dormir. Na melhor das hipóteses ainda não regressou ao trabalho. Quando já regressou os olhos ameaçam saltar das órbitas, no mínimo, e a vontade é de matar alguém a a sangue frio;

Mãe calma: Vai com os miúdos ao parque e eles brincam enquanto ela lê o seu livro favorito no banco do jardim. Os putos trepam às árvores, esfolam-se todos mas o romance é ainda melhor do que ela pensava;
Mãe em polvorosa: Vai para o parque com as crianças, rói-se toda de cada vez que os miúdos fazem equilíbrio na cerca e como se não bastasse estar atenta de cada vez que a sua criança faz um som, também fica em sobressalto cada vez que o filho de outra pessoa faz um som. É de arrancar os cabelos. Sai do parque um bocado mais cansada;

Mãe calma: Os filhos parecem saídos de um conto antigo, brincam com os brinquedos no quarto e no fim arrumam tudo dentro das respectivas gavetas. Bem, mais ou menos, mas aguenta-se;
Mãe em polvorosa: Tem de arrancar os putos da frente da TV porque eles não querem deixar o ecrã e quando finalmente consegue que eles brinquem sossegados no quarto, descobre que pintaram a parede com guache verde alface, cortaram o cabelo ou estão a empilhar cadeiras para se porem à janela;

Mãe calma: Passa vários meses a planear a decoração do quarto da criança e no fim fica tão bonito que parece saído de uma revista internacional.
Mãe em polvorosa: Passa vários meses a planear a decoração do quarto da criança e no fim a criança passa mais tempo no seu quarto que no quarto de sonho que lhe era destinado, porque não quer dormir sozinha. O miúdo passa lá tão pouco tempo que conclui que mais valia ter aproveitado aquela divisão para fazer uma biblioteca, ou um atelier;

Mãe calma: Faz um jantar delicioso com o pai dos miúdos e comem juntos. Quando os putos vão para a cama bebem um copo de vinho e o romance está no ar;
Mãe em polvorosa: Havia planos para fazer um jantar de família espectacular, mas estalou uma birra de cansaço e as coisas saíram um bocado de controlo por isso uma sopa e as sobras de ontem vão ter de servir. Durante o jantar os miúdos decidem que não gostam, vão à casa de banho fazer cocó pelo menos uma vez e precisam de companhia durante 45 minutos para adormecer. Quando o pai volta para a sala nós já adormecemos no sofá e os pratos ficaram na mesa. Mas somos uma família feliz à mesma.

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