Fotografia: Daniel Cheung

Texto: Diana

No meu primeiro Dia da Mãe fiquei na cama até mais tarde com o meu marido e a minha filha de então 9 meses, sorridente e amorosa, no meio de vários papéis de embrulho. Recebi o meu perfume favorito e o livro “Coração de Mãe”, da Planeta Tangerina. Estava tão feliz com a minha estreia neste dia inventado para gastar dinheiro em flores (que não recebi).

No segundo dia da mãe recebi um marcador de livro com a foto da minha filha, feito na escola. E um livro comprado pelo meu marido. Usei o marcador com orgulho até o perder para sempre – e ainda não recuperei do desgosto.

Na terceira vez que comemorei o Dia da Mãe como mãe, recebi uma T-shirt pintada pela minha filha, na escola. Tem o meu retrato feito por ela, caracóis e tudo, cheio de cores. Usei-a para ir almoçar fora num restaurante cool marcado pelo meu marido.

Este ano tive direito a uma pulseira feita de contas de gesso e pintadas de azul, feita na escola. Não houve livros, nem restaurantes marcados, nem ficar na cama até mais tarde, mas tive direito a um lindo retrato pintado pela minha filha na parede da escola. Eu e todas as mães dos meninos. Cartolinas com os desenhos das mães, feitos por mãos pequeninas e frases a descrever-nos. “A minha mãe é linda”, “a minha mãe é querida”; “a minha mãe lê-me histórias”, “a minha mãe não gosta de brincar“. Assim, com estas palavras todas, logo a primeira frase do desenho: “A minha mãe não gosta de brincar”. De repente eu era a madrasta má da Disney no meio daquelas cartolinas cheias de coisas fofinhas.

O meu coração apertou-se, fiquei triste e depois indignada. Não (só) com a minha filha, mas com a escola que podia ter feito mais perguntas para que a minha descrição não incluísse aquilo. “A minha mãe não gosta de brincar comigo” é um pontapé nos queixos e uma rasteira durante a maratona que é a maternidade.

Não me senti culpada,mas injustiçada. Não gosto de brincar com bonecos, é verdade. Fingir diálogos e vozes não é para mim, embora nos meus tempos de criança tenha sido bastante boa na criação de histórias e vidas para as minhas duas Barbies. Hoje não tenho paciência, por favor deixem-me em paz. Dou quase tudo de mim à minha filha, mas aparentemente não chega. Faço trabalhos manuais, pinturas, leio e invento histórias, jogamos jogos, fazemos puzzles, vemos desenhos animados juntas – mas a gaja só se lembra que a mãe não gosta de brincar. COM BONECOS. Faltou essa parte, raios partam.

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