Texto: Diana
Ilustração: Lúcia Pereira

Estou de licença de maternidade há quase dois meses e já me encontro ligeiramente aborrecida. A minha filha é um bebé amoroso, com uma cara bastante fofa e cómica, é fixe, dorme à noite e não chora muito. Porém, não diz nada. Não conversa, não sabe pegar em nada, nem sequer segurar a cabeça com que nasceu. Chora quando tem fome, quando tem sono, quando tem sono mas não consegue dormir, quando tem gases, quando está aborrecida e na maior parte das vezes eu não percebo bem o que é que ela quer. É um bocado aborrecido passar o dia nisto.

A verdade é que já me tinha esquecido de 70% das coisas que um bebé implica e representa, principalmente o quão cansativo é sair de casa com um bebé, mais o ovo e o carrinho, e a puta da calçada portuguesa e os passeios mínimos e com buracos, e o calor e o peso, se saio duas vezes de casa chego ao fim do dia exausta. Mas não só.

  • Os bebés criam entidades alienígenas malcheirosas nos refegos do pescoço, pelo que é preciso limpar bem várias vezes ao dia não vá o leite da manhã transformar-se num monstro;
  • Os bebés têm tantos movimentos involuntários que além de nos darem pontapés a toda a hora, dão socos a eles próprios. Nos olhos. Ou então é só a minha filha;
  • Os bebés só bebem leite e não há nada mais enfadonho;
  • Os bebés não seguram nem a cabeça, quando mais o corpo, e não podem ser largados no chão ou sentados em qualquer lado em caso de urgência;
  • Os bebés dão cabo das costas, ombros e pescoço, seja por andar com eles ao colo, no marsúpio, no carrinho, adormecer, dar-lhes leite – tudo é um pesadelo físico para quem sofre da cervical e para quem, como eu, tem o corpo mole de uma lesma;
  • Quando os bebés têm sono não significa que vão dormir, significa que vão chorar porque não conseguem adormecer e porque não querem adormecer porque já vêm bem e os quadros da parede parecem incríveis;

(pausa para atender o choro da minha filha que está a dormir mas acorda de 10 em 10 minutos não faço ideia porquê)

  • Estou sempre a olhar para baixo, estou sempre curvada de ombros para a frente, ou é a mais velha, ou é a mais nova ou é o cão. Agora sei o que deve ter sentido a Branca de Neve quando se amancebou com os sete anões;
  • Os bebés fazem cocó enquanto comem e dão arrotos altos e fedorentos a cheirar a leite estragado.
  • Os bebés fazem barulhos esquisitos que ficam algures entre o Gollum do “O Senhor dos Anéis” e um golfinho em stress.

“Ah mas são tão fofinhos”. Pois são, é o que os safa.

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