Texto e Ilustração: Rita

A minha filha está sentada no corredor, em pijama, de braços cruzados e amuada. A roupa não está bem escolhida. Não era aquela que ela queria. “Nem pensar que esses calções de (blaargh) ganga me possam ficar bem. E essa saia com suspensórios? Pelo amor da santa, que péssimo gosto, mamã.” — imagino ser isto que lhe passa pela cabeça.

 

Quantas mães, quantas, questiono-me, terão estas querelas matinais com os filhos? De certeza não sou a única. E isto cansa, oh se cansa, a cabeça logo de manhã. Mas para nada.

De vez em quando folheio os álbuns de fotografias e vejo-me em plena infância vestida com umas coisas muito estranhas. Eu sei que a minha mãe se esforçava para me impingir umas quantas peças ao gosto dela e não conseguia. Mas ela sempre teve bom gosto. Portanto concluo que as fotografias em que apareço com roupas esquisitas só podem ser conjugações minhas. (Aham. Feitas no passado, claro, porque hoje sou uma pessoa de extremo bom gosto.) Isto leva-me a crer que tenho um problema repetido — a questão deve ser hereditária.

E confirmo com a minha mãe: só podia andar de mini saia e com camisolas de ombro à mostra. Nem pensar em vestir camisolas de gola alta. E, para cúmulo, um dia fui de vestido domingueiro rendado para uma escavação arqueológica. Não preciso de saber mais nada.

Ultimamente o tema vestir ficou mais fácil entre mim e a minha filha. Não foi ela que facilitou a minha vida, simplesmente defini prioridades: há coisas pelas quais vale a pena lutar, ser inflexível: a refeição, o banho, a noite bem dormida, as maneiras — outras, nem por isso. Assim, quando ela empina o nariz e diz “não gosto”, raramente insisto, ponho as peças de lado e digo-lhe para escolher outra coisa. Tento contornar mais ou menos a situação para que não saia de casa tipo boneca de trapos, mas às vezes não há volta a dar. Já lá vai o tempo da tirania.

Agora pede-me para usar as roupas de brincar no dia-a-dia, na rua. Os vestidos de princesa, de sereia, em cetim brilhante e pindérico, cheios de berloques e lantejoulas pendurados, fitas, transparências e tules, usá-los como se fossem roupa de verdade. Para poder ser a Rapunzel, a Elsa, a Ariel, a Minnie. Disse-lhe que não, só se pode fazer isso no Carnaval, ora essa. Mas dada a insistência acabei por ceder —não haveria de ser nada. A primeira vez fomos só ao cabeleireiro com a roupa da Elsa. Ela pairou no passeio e as velhinhas sorriram. Eu encolhi os ombros (e tive um bocadinho de vergonha).

Ontem quis ir com o vestido de sereia Ariel para o parque, andar de trotineta (não me digam que nunca viram atletas com roupas alternativas!). E lá foi, vestida como se fosse um bolo de noiva de chantilly nos anos 80: folhos nos ombros, folhos nos pés, glitter na barriga, feliz da vida e quase sem conseguir mexer as pernas. Só faltava a cereja no topo. Eu respirei fundo, descompliquei e pensei: estás a ser óptima mãe! Uma birra a menos, família mais feliz.

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