Fotografia: Andrew Seaman

A casa está silenciosa, todos dormem. A cama tão quentinha e fofa onde era capaz de viver e na qual pensou todo o dia. Quando aterrou no colchão nem queria acreditar o quão cansada estava. E é então que ouve um chamado: será do além? Uma voz pequenina chama “mãe”, “mamã”. O que raios quer agora? A custo destapa-se e vai ao quarto da criança para a encontrar toda molhada numa enorme poça de chichi. Como raios bexigas tão pequenas acumulam tanta água é que não sabemos. É madrugada e tem de mudar a cama da criança – e só lhe apetece fugir.

A verdade é que, segundo a psicóloga infantil Maria Portugal, por vezes “as crianças – depois de já terem largado as fraldas e serem autónomas na higiene, ou seja, já irem à casa de banho sozinhas – têm períodos em que fazem chichi na cama à noite ou até nas cuecas durante o dia”. Isto em crianças com mais de três anos.

Maria Portugal  dá algumas dicas de como reagir:

É melhor não dar importância, não ligar muito, para não fazer disto um bicho de sete cabeças ou devo condenar esse comportamento para que não se repita? O que e como fazer para que isto deixe de acontecer, sem o mencionar como um problema?

Para conseguirmos responder a estas questões temos de perceber “porque é que isto está a acontecer?”

E esta resposta cada família terá de encontrar a sua, situando a questão no contexto familiar da criança. Pode haver vários significados para este comportamento mas ele é visto como um sintoma de algo e não uma doença (a não ser em casos muito específicos), muitas vezes relacionado com insegurança, aflição ou uma ausência importante. Esta é a forma que a criança encontrou para nos comunicar que há algo que ela não está a conseguir estruturar, da sua intimidade.

Não conseguir reter o chichi, significa não ser capaz de se controlar uma inquietação. Pelo contrário, a capacidade da criança para reter e controlar-se, é a capacidade para organizar o que tem dentro de si: segredos, emoções, pensamentos, isto é a sua intimidade, que não tem de estar à vista do outro; é construir uma vida interior própria.

Uma criança a partir dos 4, 5 anos tem consciência sobre si própria e dá importância ao que os outros dizem e pensam sobre ela. Ou seja, já há uma reputação a manter. Então, nestas idades a criança sabe e sente que fazer chichi na cama é fracassar numa esfera, e que fracassar é ser má.

É importante não exacerbar esse sentimento, mas também não ser excessivamente tolerante, já que o limite e a restrição ajudam a separar claramente aquilo que pode pensar daquilo que pode fazer.

Posto isto, aqui vão algumas ideias que podem ajudar:

  1. Não ignorar ou fingir que não aconteceu. Se esta é uma forma de comunicação da criança, temos de ouvi-la, ainda que possamos não compreendê-la. Sem pressionar para que nos conte ou para que haja um diálogo profundo em redor do tema, basta mencionar que estamos lá e estamos atentos. Pode dizer-se, por exemplo: “ Eu sei que hoje fizeste chichi na cama e fico a pensar que há alguma coisa que te está a deixar preocupada ou triste.”
  2. Evitar castigar e ralhar ou falar disso diante de outras pessoas. Se o fazer chichi na cama é revelador de uma aflição, uma resposta punitiva dos pais vai amplificar essa aflição. E lembrem-se: há uma reputação a manter, falar disso publicamente pode ser sentido como uma grande humilhação.
  3. Considerar a solução desta situação como um objectivo, um êxito da criança, e não como um objectivo dos pais. Se esta ideia estiver guardada dentro dos pais, estes não se envolvem demasiado, nem geram sentimentos de culpa ou fracasso, que os filhos acabam por sentir.
  4. Elogiar outras áreas da vida da criança em que o seu desempenho é um sucesso, mas só se for verdade e sentido por quem o diz.
  5. Brincar: é a forma de comunicação da criança, por excelência e é aí que ela vai depositar os seus medos e angústias, portanto nunca é demais contar histórias tradicionais, jogar jogos e criar brincadeiras. Mas, mais uma vez, não pode ser forçado, tem de haver essa vontade de brincar.
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