Texto: Nelma Viana
Ilustração: Rita

Toda eu, do rabo aos joelhos, acumulo pequenos socalcos de gordura localizada que se multiplicam descontroladamente ao longo das últimas 21 semanas.

Pergunta-se ao Google “como tratar celulite na gravidez” e a resposta é rápida: não se trata. Ponto. Aguenta e não chora. Muda-se a pesquisa para inglês porque nunca se sabe se não haverá um estudo qualquer da John Hopkins a dizer que sim senhor não faz mal nenhum perfurar a pele com raios laser, sucções violentas e massagens à bruta que desfaçam a os nódulos de gordura. Escarafuncha-se a internet na esperança de encontrar uma terapia alternativa altamente recomendada pela comunidade médica e da qual a nossa própria médica não nos falou porque a conclusão só se conheceu há coisa de 10 minutos. Percebe-se, afinal, que não e muda-se de estratégia.

“Ai é, então se eu estou assim a meio da gravidez, deixa lá ver como é que estão as outras flausinas das redes sociais. De certeza que isto não é só comigo”. Foda-se… estão muito melhor. E, pronto, a partir daqui instala-se uma rotina quase diária de cuscar rabo, pernas e barriga alheia sempre com o olho fisgado nas que estão muito piores do que nós. É para essas que olhamos, é a elas que nos comparamos e é com elas que damos graças por não estarmos “assim tão mal”.

Somos umas cabras, é o que é. E grávidas conseguimos ser muito piores. Sentimos alívio com o excesso de peso das outras, nós que até conseguimos não ultrapassar a barreira do 1kg por mês de engorda; lamentamos a amiga que ficou com estrias e apressamo-nos a dar dicas de resolução mas esboçamos um sorrizinho sacana quando olhamos para a nossa barriga só para confirmar que continua lisinha e sem marcas; damos por nós ao serão a olhar para os pezinhos, que agitamos em jeito de provocação, enquanto nos lembramos das desgraçadas com tornozelos de elefante. Somos assim e temos alguma vergonha de regozijar com o mal dos outros mas é nesta comparação idiota que, às vezes, encontramos um bocadinho de conforto. Se nos perguntarem, negamos até à morte.

Bancamos a independente, a informada que sabe bem que estas transformações do corpo podem ser para a vida (se não nos cair a bexiga durante o parto já é uma sorte) mas que “com uma alimentação regrada, muita mama e algum exercício físico” ainda se pode voltar a sonhar com uma silhueta mais ou menos composta.

Mas durante 9 meses, talvez pela falta de irrigação cerebral, obceca-se com o que se passa ao espelho. Eu obceco. Porque embora goste muito da minha barriga, e gosto tanto, odeio aquilo em que se transformaram as minhas mamas, o meu rabo, as minhas pernas e a minha pele. O “brilho da maternidade” de que se fala, é mentira. Que a pele, as unhas e o cabelo ficam incríveis, é mentira. Que não tem mal nenhum o nosso corpo transformar-se num reservatório de nhanha porque é por um bem maior, e depois, já se sabe, volta tudo ao sítio, também não é bem assim. Que nos sentimos sensuais, super empoderadas e mais femininas do que nunca, também não corresponde.

Eu só já queria ver o meu pipi convenientemente e ter vontade de usá-lo para mais do que fazer xixi. Para já, é só para o que me serve. Mas isto sou eu, sobre as outras não posso falar – até porque não ando por aí a dar conta da vida alheia.

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