pai de três

Fotografias: Ágata Xavier

Vítor e os três filhos: Leonor, Manuel e JoãoTexto: Vítor Hugo, dono e senhor do blogue “Factos de Treino” e pai de três.

Fui pai pela primeira vez aos 30 anos, o início daquela que se veio a revelar “a década da filharada”. Não estávamos à procura de nada mas sabíamos os riscos que corríamos. Mal comparado, é como passares a vida a conduzir bêbedo… pode não correr mal à primeira mas, mais tarde ou mais cedo, espetas-te. A grande diferença é que aqui não morres no acidente. Renasces. E renascer, é a melhor coisinha que nos pode acontecer na vida.

Quando soube da gravidez pensei: “Ora bem… isto agora é a sério”. Foi a primeira vez na vida que tive a certeza absoluta que estava perante algo que ficava para sempre. Serei capaz? Sempre fui filho… como é que, de repente, passo a ser eu o pai? Essa noção assusta porque não se compadece com arrependimentos. Depois disso, tonturas, náuseas, tremores, suores frios e uma dor lancinante nos rins. O normal.

Quando a Leonor tinha um ano acabado de fazer, separámos-nos. Deixar de vê-la todos os dias foi horrível e o preço mais alto que algum dia paguei como consequência de uma decisão minha. Sabia que era o melhor para todos e sabia que tinha que ser, mas foi muito difícil fazê-lo num momento em que ainda estava submerso naquela avalanche da primeira filha. Nunca tive dúvidas de que foi a decisão acertada mas, para evitar males maiores, acho que acabei por pagar um preço um pouco mais alto do que poderia ter sido.

À Leonor (10 anos), juntaram-se o Manel (4) e o João (quase 2 anos). Os três pilares da minha paTRInidade. Quando os vejo a correr pela casa, penso: “Humm, se calhar precipitei-me”. Quando estou no carro, com eles aos gritos no banco de trás, penso: “Se há pessoas que conseguem abandonar um animal na beira da estrada, porque raio eu não consigo abandonar estes três?”. Mas depois há aquele momento em que estou no sofá com os três ao meu lado e nem consigo acreditar que sou pai daquela malta toda. Perceber que, sozinhos, já somos uma data deles. Ver a forma como se dão. Ver que ninguém se anula, tudo acumula. O melhor da vida, vezes três. Isso, e despesa.

Depois da choradeira que foi a primeira vez em que me ouvi: “Pai, já pode pegar na sua filha”, estava convencido que nada na vida me voltaria a acertar com tanta força. Até que essa mesma vida me coloca um segundo filho no caminho e tudo se repete como se nunca tivesse acontecido. Choradeira e aquele amor assolapado por alguém que, na verdade, não conhecemos de lado nenhum. Com o terceiro é que já foi diferente, meti férias e nem sequer estava cá quando nasceu. Mentira. Mais choradeira e frases como: “Meu rico filho! Coisa boa do pai!” soluçadas pelos corredores do hospital como se fosse a primeira vez. Ainda hoje choro por causa deles. Mas agora é mais por causa das mensalidades do colégio e quando percebo que, se quiser ir a algum lado de avião, tenho que juntar dinheiro para mais três bilhetes. Um flagelo é o que é.

Sempre quis ter filhos, mas nunca pensei ter tantos. O facto de ser um gajo informado e com acesso fácil a contraceptivos, não me diferenciou em nada daquela malta pouco instruída que ainda não percebeu que o cântaro não tem que partir de cada vez que vai à fonte. Ah, e também não tenho dinheiro para ser uma daquelas famílias “de bem” que valorizam ter 37 filhos. Calhou!

 

Quando nasceram os outros irmãos a Leonor reagiu super bem. Já tinha idade suficiente para perceber que há espaço para todos e, na verdade, passou a ter alguém em quem exercer o seu poder de “mais velha”. Já eles, como percebem que não está sempre presente, deliram quando a vêem chegar.

A minha relação com ela é diferente da que tenho com os rapazes, não só por ser rapariga, mas também por ser a mais velha e porque não a tenho comigo a toda a hora. Tento ser equilibrado e não cair no erro de “compensar a ausência”. Tento. Mas nem sempre consigo.

Com a chegada dos rapazes descobri que, numa escala de zero a “derreti completamente, façam de mim o que quiserem”, não existe diferença nenhuma entre a menina do papá e os campeões do pai. Nenhum deles faz farinha comigo… a menos que me abrace e me encha de beijos. Se assim for, é o que quiserem! (Eu sei que podem ser as campeãs do pai e os meninos do papá… mas vocês também percebem o que quero dizer e já não há paciência para tanta mariquice. Pronto… agora disse mariquice. É melhor parar por aqui antes de caia na espiral do politicamente incorrecto).

A maior dificuldade da paternidade continua a ser dormir. Ou conseguir estar na sala sem a televisão aos berros. Conduzir sem estar constantemente a ser chamado para ver sei lá o quê. Estar no jardim sem ter medo de perder um. Ir à praia e conseguir deitar-me na toalha. Comer num restaurante sem ser interrompido porque “quero fazer xixi”. Parar de limpar rabos. Não ter que estar constantemente com medo que abram o whatsapp sem querer e vejam coisas que não vou conseguir explicar. É para continuar?

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