Nomes portugueses
Há nomes portugueses bastante… originais

Em “Viagem à roda do meu nome”, livro de Alice Vieira, um menino a quem, entre todos os nomes portugueses, calhou Abílio, decide mudá-lo para outro bastante mais comum. Até ao momento em que descobre a história do nome e porque é que lhe foi dado. E passa a aceitá-lo e a vê-lo de forma diferente.

Um nome não é apenas um nome, é parte do que nos define. É quem somos e é a única coisa que será sempre nossa até ao fim da vida. Os pais dão nomes aos filhos por várias razões: tradições de família, homenagens, sonhos de infância, porque querem ser identificados com determinados estatutos sociais, porque simplesmente gostam do som.

Perguntámos a seis pais a história dos nomes dos filhos e as respostas são melhores do que imaginámos:

Catarina Fernandes Raminhos, mãe da Maria Rita, Maria Inês e Maria Leonor, autora do blog “7 da tarde” e empresária da Lucky Flamingo.

Com a  primeira filha achei que poderia dar-lhe o nome de que sempre tinha gostado a vida toda: Matilde. Acontece que para o pai da criança isso era “impensável” porque “detestava o nome”. Detestava… raios! Então tivemos de pensar os dois num que fosse consensual (e eu que estou habituada a decidir tudo sozinha e a comunicar a minha decisão). Gosto muito da cantora Maria Rita, mas não foi isso que me levou a escolher o nome. Achei-o sempre fresco, mais engraçado do que Ana Rita, porque sou Ana Catarina e não gosto. Um nome pouco comum (“ao contrário de Matilde que há aos molhos”, dizia ele e muito bem – vejo agora), que me dava a imagem de uma miúda com pelo na venta, mas doce – e não me enganei.

Com a segunda acho que ainda tentei Matilde, sem efeito. Beatriz e Inês eram as minhas sugestões. “E se fosse Maria também?”, perguntou o pai. “Nem pensar, duas Marias?! Parece que tivemos uma branca…”, respondi eu. Depois de saber que Beatriz também não agradava ao paizinho, insisti em Inês e ele contra-atacava: Maria Inês. Como é que conseguiu levar a dele avante? Dizendo à pequenina Maria Rita que a mana que estava na barriga era Maria Inês. Ouvi-la dizer o nome da mana, “Minês”, era tão fofinho que toda a gente começou a perguntar pela Maria Inês. Acabei por me render e lá veio uma Maria Inês que é só a mais fofinha.

Como a terceira nem era suposto existir (veio porque quis) não havia nome para a criança. Uma coisa era certa: não fazia sentido não ter Maria no nome. Então começámos a fazer combinações. Primeiro surgiu Maria Luísa mas era o nome da avó do Raminhos, má como as cobras, e eu não aceitei. Achei sempre Leonor mais doce e fofinho do que Luísa ou Laura e assim ficou: Maria Leonor. De facto, uma miúda doce, mas como muito mais pelo na venta do que a mana mais velha e não tão fofinha como a do meio.

Maria Brazão, mãe do Gustavo e gestora de projetos na Meo.

Como eu já tinha um nome de menina em mente, concordámos que se fosse rapaz seria o pai a escolher o nome (claro que eu também teria de gostar). Fomos passear para o Chiado e pensar em nomes. Chegámos rapidamente a dois ou três que gostávamos muito, mas depois achámos (e googlamos) que eram dos nomes mais usados nesse ano, e por isso a nossa escolha foi para um nome que para nós não era tão óbvio, mas que nos soou logo perfeito: Gustavo. Achámos que era único, não conhecíamos ninguém com esse nome, e a única referência que eu tinha era da personagem do Grand Budapest Hotel (que tínhamos acabado de ver no cinema), Gustave, portanto era perfeito! Já não pensámos mais, estava escolhido. Claro que dos avós ainda tivemos de ouvir “bem que podiam ter escolhido um nome mais bonito”…

Ayres Gonçalo, pai do Infante da Paz, da Frederica da Paz e alfaiate.

Quando soubemos qual era o sexo do bebé fui ver a lista do registo civil dos nomes que são permitidos em Portugal. Selecionei quatro ou cinco, mas a minha mulher não deixou quase nenhum.

Gostei de Infante e queria que o segundo nome tivesse qualquer coisa a ver com paz porque tenho um irmão mais novo e tanto eu tanto eu como ele fazíamos muitos disparates na adolescência. Acredito que os genes estejam no meu filho e para tentar prevenir decidimos pôr da Paz.

A fonética de Infante da Paz ficava muito boa. Mas não resultou, o meu filho é um terror. Descobri há uns tempos que pazzi é o plural de pazzo que significa “louco” em italiano.

Nunca ninguém consegue assimiliar à primeira o nome dele e por isso, mal ele nasceu,  arranjamos um nick name, Pazzi, que é como todos lhe chamam, até na escola. Quando o fomos registar, dois dias depois de ele nascer, percebemos que não existe no mundo ninguém com o nome dele. A senhora do registo pensou que estávamos loucos e o sistema até bloqueou.

Acabei por criar uma marca chamada Pazzi, com camisas para pai e filho andarem iguais. Tenho também T-shirts a produzir pela primeira vez com a marca.

A minha filha Frederica não era para ser da Paz, eu queria pôr da Liberdade, mas a minha mulher disse que era melhor terem ambos o mesmo nome. O que foi bom porque assim não tenho de criar uma marca para ela (risos).

Inês Ribeiro, mãe da Maria Delmar e artista plástica.

A Maria Delmar tem este nome devido ao facto de ter nascido num arquipélago [Açores], logo, rodeada de mar… Se estivéssemos em Espanha ter-lhe-íamos posto Maria del Mar mas como não é permitido decidimos juntar tudo.
Marias do Mar já há algumas, não queríamos que tivesse o artigo “do”.
Pesquisamos e percebemos que Delmar é um nome masculino usado como apelido. Decidimos prosseguir com a seleção do nome mesmo assim e, foi aceite!
Agora temos uma Maria Delmar com os olhos da cor do mar…quem diria?

Patrícia Naves, mãe da Mia e do Lucas, jornalista na revista NiT.

O nome da Mia já vem de longe, logo que começámos a tentar ter filhos. O Nuno gostava de Bia, de Beatriz, mas não adorava o nome em si e eu dizia-lhe: “Não podes dar um nome a uma criança e esperar que ela seja tratada pelo diminutivo a vida toda”. Perguntei : “E Mia?” E soou-me a mel, ainda hoje soa e para mim ficou – ele teve de ser convencido. Sempre gostei da Mia Farrow por causa dos filmes do Woody Allen (creio que isto foi antes de saber como essa história acabou, ou talvez tivesse sido diferente), do Mia Couto e quanto mais dizia o nome mais me parecia isso mesmo, uma doçura, mel.

Entretanto foi uma luta para ter a Mia, tivemos de ir ao inferno e esperar muito e quando ela finalmente já cá andava na minha barriga decidimos que já não poderia ser outro nome, nem pensar. Aliás, eu costumava dizer que a Mia já existia, eu só tinha de a trazer.

As pessoas estranhavam, e ainda estranham, a família dizia que era nome de gato, todos pediam para mudar e agora todos adoram. A ironia é que, entretanto, o nome foi introduzido na lista dos autorizados- antes era proibido e conheço um casal que teve de registar a filha como Maria para, em casa, lhe chamar Mia.

O Lucas foi daqueles momentos de quando um casal mal namora e já começa a brincar aos crescidos e a definir nomes de filhos e de repente acerta num e parece um sinal? Pronto, foi essa baboseira. Mal namorávamos e um dia a brincar ao “e se um dia tivéssemos filhos” dissemos “Lucas” ao mesmo tempo se fosse um rapaz. Awwww que lindos! Ele porque tem um bisavô chamado Lucas, que nunca conheceu mas de quem sempre ouviu grandes histórias – e ficou a associação do nome a uma pessoa mega cool. Eu, na verdade, porque em miúda amava a novela “Vereda Tropical” e o personagem Luca e por isso o nome sempre ficou associado a uma pessoa mega cool. E o meu filho tem mesmo, ar de Lucas, uma pessoa mega cool!

Lara Franco Gomes, mãe do Tristão e dona do Soapmadre

Desde pequenina que gosto de palavras que começam com a letra T. Não sei bem explicar porquê, mas sempre foi assim.

Aos meus primeiros peluches (um ursinho azul bebé e um urso maior castanho escuro) dei o nome de Ti e “Pai do Ti”. Sim, para mim “Pai do Ti” era um nome. Depois chegou um canguru fêmea cor-de-rosa, com uma bolsinha com um canguru bebé e ficaram a chamar-se Tá e “Mãe do Tá”. A estes podia acrescentar mais mil, como o Teco (um palhacinho verde) ou o Tutchí (um ursinho castanho claro que quando se apertava fazia barulho).

O Ti sempre foi o mais especial de todos, até ao dia em que teve de dividir as atenções com um cãozito que apareceu lá por casa. Um cão com uma lágrima num olho. Tinha um ar triste e isso estranhamente reconfortava-me. Decidi chamá-lo Tristão e, desde esse dia, não existiu um dia em que eu olhasse para o Tristão e o achasse menos do que feliz. Tivemos uma história muito bonita juntos… e, de certa maneira, ainda temos porque ele ainda anda aqui por casa.

O nome Tristão ficou comigo. Não o consegui dar ao meu primeiro filho porque um filho nunca é só nosso, mas também acho que não tinha de ser. O nome Bernardo apareceu-me e ainda bem, porque acho que fica mesmo bem ao meu filho mais velho.

Quando fiquei grávida do meu segundo filho sabia perfeitamente o que queria e, como já era mais velha, estava disposta a lutar por isso. Se fosse rapariga queria Esther e se fosse rapaz, Tristão. A Esther passou a Dolores, que passou a Mercedes… mas Tristão foi logo aceite pelo meu marido, com muito entusiasmo (o que me deixou muito feliz)!

E era mesmo rapaz… o único nome que se manteve desde o primeiro momento, nasceu! É um bebé de quase três anos e não há dia que olhe para ele e o ache menos do que feliz. Tenho cá para mim que nem poderia ter outro nome, este assenta-lhe que nem um luva!

Ah, e a primeira coisa que o meu filho Tristão fez quando lhe apresentei o peluche Tristão foi arrancar-lhe o nariz e … e a lágrima!

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