Maria Teresa, a bulldog francesa

Texto: Sara Chaves
Ilustração: Rita

O Sporting estava a ganhar dois a zero ao Paços de Ferreira quando me levantei do sofá e disse ao André que estava pronta para fazer chichi. Eram sete e tal da tarde e tinha bebido uma garrafa de litro e meio de água quase de seguida para tentar acabar de vez com as incertezas.

-“Espera. Tenho de me ir calçar”, disse-me ele.

-“Então? Estás a pensar fugir a seguir, é isso?”

-“Epá, não. Mas vou precisar de ir lá fora fumar um cigarro.”

Na farmácia tinham-me dito que tinha de esperar um minuto para que aparecesse o resultado do teste. Lembro-me que não passaram mais de 10 segundos até surgirem os dois riscos.

Estava grávida. E quem fugiu fui eu. Vim para o quarto aos gritos, sem saber muito bem o que fazer. Voltei à casa de banho e não havia cheiro a tabaco. Apenas um futuro pai de 24 anos a olhar há mais de cinco minutos para um teste. A seguir, saímos os dois de casa sem saber bem para onde. Acabámos ao pé do mar.

Na altura estávamos a viver juntos há apenas quatro meses e, embora já namorássemos há cinco anos e tivéssemos empregos estáveis, não estava nos planos próximos termos um bebé. Eu sentia-me preparada. Ele não. E eu tinha aprendido a viver com isso.

Os dias seguintes foram, claro, um misto de emoções. Contar ou não contar já à família, marcar consultas e afins. Foram quatro a cinco dias de muitos nervos, um futuro pai aparvalhado e uma futura mãe a ver-se ao espelho a cada instante — não fosse a barriga ter crescido nos últimos 10 minutos.

Lembro-me que numa das primeiras fotos que tirei a Maria Teresa aparecia em grande plano. Foi nessa altura que percebi que o desafio que tinha pela frente era ainda maior do que pensara.

A Maria Teresa tinha aparecido na minha vida há dois anos e meio e eu tratava-a como uma filha. Bulldog francês branca, era a minha maior companhia. Em 2016 tinha saído de casa da minha mãe muito por causa dela (para que tivesse mais espaço e um terraço para brincar).

Dormia comigo, inclusive. Para tornar tudo ainda mais, digamos, interessante, ela olhava para mim quando lhe chamava “filha” e seguia-me assim que dizia “anda cá à mãe” – sim eu estava mesmo preparada para a maternidade. E agora estava grávida. Ia ter uma filha a sério e, por mais que me custasse, muita coisa ia mudar.

Bem sabemos que quando engravidamos o mundo parece ter um mestrado na área. Tive de ouvir muitas vezes coisas como: “A Maria é muito apegada a ti. Vai rejeitar a bebé”; “o cão de uma amiga mordeu a criança com dias”; “é melhor a cadela ir para casa da tua mãe nos primeiros meses”; “ela vai morrer de desgosto”.

Sorri a tudo. Depois, ignorei. Tive uma conversa com o André e disse-lhe que ia começar a preparar a cadela com antecedência. Ele apenas me pediu uma coisa: ela tinha de deixar de dormir no nosso quarto.

A barriga foi crescendo e nem fui eu que tomei a iniciativa de apresentá-la à minha cadela. A Maria começou a cheirá-la com frequência. Foi nessa altura que comecei a usar duas palavras com frequência: “bebé” e “Chica”, diminutivo do nome da bebé (dizem que os cães conseguem decorar melhor nomes com vogais fortes e fui por aí).

Todos os dias assim que acordo vou com a cadela ao futuro quarto da bebé. Ficamos lá cerca de cinco minutos e conto-lhe sempre a mesma história em que repito que vem aí um bebé, a Chica, e que vai ser a melhor amiga dela. Montei lá uma daquelas tendas tipi kids onde pus brinquedos das duas. A cadela sabe que só pode brincar com os dela. E, por incrível que pareça, não mexe nos novos.

À noite, quando estou a fazer toda aquela rotina que envolve creme gordo pela imensidão da minha barriga, também me fecho na casa de banho com ela. Ponho música e a cena do dia anterior repete-se: falo com as duas, como se me percebessem.

Se a Maria entende tudo? Gosto de acreditar que sim. Pelo menos nunca mais me saltou para cima da barriga com força, respeita os brinquedos que já existem no quarto novo e dorme aos pés da cama, sem nunca tentar subir. Ainda não consegui tirá-la do nosso quarto e sei que tenho apenas um mês para o fazer.

Sou daquelas que acredita que o amor e dedicação resolve tudo, seja com pessoas ou animais. No dia em que fui buscar a Maria prometi-lhe que lhe daria o melhor e seria injusto se agora tudo mudasse. Sei que vai ser uma fase de adaptação difícil, que vou ter menos tempo para ela, mas também sei que ela está bem preparada para o que aí vem. Que vai ser maravilhoso, tenho a certeza.

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