Texto: Diana
Ilustração: Rita

Estou no final da gravidez  e já não podem ouvir-me a queixar, não é? Eu percebo. Porém, sejam solidários e dêem-me um abraço virtual. Estou de 38 semanas, tenho uma enormíssima barriga e pouca mobilidade. Não vejo nada abaixo da minha linha do equador faz meses e isso é triste. Não faço ideia o que se passa por lá, se está composto, se está amazónico, se mudou de cor.

Quando tenho de levantar-me da cama só me apetece rebolar para o chão e ficar lá até ela nascer, que se lixe. Cortar as unhas dos pés e calçar-me é como os Jogos Sem Fronteiras e eu sou San Marino. Tenho hemorróidas, assim que o se liga o carro fico com vontade de fazer chichi e vivo com medo de que isso possa mesmo acontecer em público. Tenho azia como se um dragão vivesse no meu esófago. Dores musculares porque durmo sempre para o mesmo lado.

Não consigo conduzir, pelo que não estou livre e independente e isso deixa-me de mau humor. Não tenho controlo em nada do que acontece no meu corpo e palavra de honra que prefiro mamas a deitar leite que este desconforto. Acordo a meio da sesta e a meio da noite com uma quantidade inacreditável de baba a escorrer-me pelo queixo e o meu cérebro não funciona bem. Parece que está meio adormecido. Tudo me parece demasiado complicado e dif´ícil como uma conta de dividir por números ímpares.

Quero fazer montes de coisas antes que ela nasça mas não consigo. Faço planos na minha cabeça para o dia seguinte mas depois almoço e a minha vida acabou. Só consigo funcionar de manhã. Três a quatro horas produtivas que desaparecem num instante.

Agora vou ali fazer não sei o que, já não me lembro bem. Talvez comer.

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