Texto: Diana

Deixem-me falar-vos do que é ser uma criança mariquinhas. Introvertida, pronto. Sem confiança. Medrosa. Tímida. Deixem-me  explicar-vos a vontade de vencer o medo e não conseguir. Como aqueles sonhos em que se grita e não sai som. Ninguém percebe, ninguém liga, ninguém é solidário. Dos outros miúdos apenas apontar de dedos e gozo, dos pais fala de paciência e zangas. Não há espaço para miúdos que não se desenmerdam. Não se chegam à frente. Não dizem o que querem, não são capazes sequer de pedir uma porcaria de um sumo no restaurante. “Pede tu”, dizem eles enquanto se encolhem e fazem caras parvas sem dar por isso.

A minha filha é assim: tímida, envergonhada. Não por falta de confiança nela mesma, mas por não gostar de ser o centro das atenções. Só em casa, connosco, ela dá shows de dança e parvoíce infantil. Eu sinto nos músculos do corpo dela o sofrimento e sacrifício que é para ela comunicar com estranhos ou com pessoas fora do círculo pais/avós. Dói-me ter de a obrigar, por vezes, a combater esse mau estar que a envolve, porque a sociedade assim o exige: ninguém gosta de meninas mal educadas que não cumprimentam ninguém.

Fiz um acordo: não precisa de falar, muito menos dar beijinhos, mas tem de acenar com a mão. Parece-me um bom princípio. Basta um rápido cumprimento para reconhecer a presença de outras pessoas. Elas ficam felizes, ela não sofre tanto. Curso de parentalidade nível 0.1 superado.

É que também eu fui assim, mas ainda pior porque foi mais tarde. Eu era tão tímida, tinha tão pouca confiança em mim que passei o 9.º ano sem entrar no bar da escola porque tinha vergonha. Por alguma razão absurda as pessoas envergonhadas acham que o mundo inteiro repara nelas.

Ultrapassar as minhas paranóias, a minha absoluta falta de confiança, que me levava a esconder as mãos com as mangas da camisola porque as achava demasiado grandes e a andar meia curvada para ficar mais pequena – e que me deu uma cervical merdosa, não tenho dúvida – foi rápido e simples. Bastou que um rapaz, o rapaz mais giro da escola, se apaixonasse por mim. Em três tempos um namoro resolveu o que há anos a minha mãe tentava combater. E esta é, provavelmente, a cena menos feminista da minha vida, o acontecimento menos girl power e mais fraquinho que alguma vez tive. Mas no fundo tudo se resume a uma coisa, tão simples e pirosa: às vezes, quase sempre, só precisamos de um pouco de amor.

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