Texto: Maria Portugal

Muito se fala sobre o sono das crianças. Há as que adormecem logo e acordam a meio da noite, há as que nunca adormecem e que se levantam sistematicamente, há as que berram, as que são irrequietas, e depois há os pais destas crianças. Pais que adoram dormir mas já não sabem o que isso é, pais que nunca deram muita importância às horas de sono mas que agora lhes parecem tempos preciosos, pais desesperados com notórias falhas na satisfação das necessidades básicas como é o dormir.

Dentro do sono, falamos aqui especificamente dos pesadelos e terrores nocturnos. Quando as crianças acordam assustadas porque viram um monstro, uma bruxa, um ladrão… Antes de mais, dizer que os terrores nocturnos são uma etapa evolutiva normal da vida psíquica, é natural que em algumas idades acordem com medo uma vez que estão a aprender a sonhar. E os pesadelos e terrores nocturnos são exactamente pensamentos nocturnos que metem medo e não são transformados em sonhos, que os (nos) fariam dormir tranquilamente. Por isso é que as crianças acordam: precisam do adulto para ajudá-las a elaborar o pensamento, precisam de ajuda para compreenderem o que se passa.

Então, como é que isso se faz?

Primeiro que tudo, é importante lembrar que pais tranquilos = filhos tranquilos: as crianças regulam as suas emoções através dos pais, é como um espelho, se virem que os pais estão muito assustados, assustam-se, se virem que os pais estão tranquilos, acalmam-se. Mas atenção para não menosprezar o que as crianças sentiram ou viram e não encará-lo como uma mentira. Não é mentira, é a fantasia deles. Os medos das crianças são difíceis de compreender por se tratarem de fantasias de que a própria criança não tem consciência.

Dicas para lidar com pesadelos e terrores nocturnos

Antes de dormir:
1. É conveniente que a cama onde a criança dorme não tenha grades, ou que estas sejam suficientemente baixas para que ela consiga entrar e sair da cama sozinha. Se necessário, colocar uma cadeira, almofadas ou colchão perto da cama. A cama não deve ser sentida como uma prisão.
2. O copo de água: poder sentar-se e chegar sozinha a um copo ou garrafa de água e beber, acalma. Para além de que funciona como uma espécie de companhia s.o.s., tal como o ursinho de peluche.

Quando acorda:
1. Já passou. Perguntar o que aconteceu, o que viu. Confirmar que deve ter sido muito assustador sim, mas na verdade não está ali nenhum monstro, bruxa, ladrão, já passou e agora está tudo bem.

Durante e ao longo do dia:
1. Contar histórias: histórias do que sonhou, histórias dos livros ou até histórias inventadas pelos pais. As histórias ajudam a desenvolver o imaginário, a elaborar o pensamento, fazem sonhar acordada e sonhar a dormir (ou seja, a dormir profundamente, sem acordar)
(Curiosidade: é por isso que as crianças gostam de ouvir sempre a mesma história e às vezes até corrigem o adulto se se desvia ligeiramente do enredo, porque dá segurança, é como se ficassem asseguradas de como é que se resolve, como é que acaba tranquilamente aquilo que outrora foi assustador).
2. Brincar — estimular os jogos com o escuro: a cabra cega, o quarto escuro. Estas brincadeiras fomentam o que foi dito anteriormente: há/não há ; é escuro/é claro; parece um sitio diferente/é o mesmo sítio.

Boa sorte!

Maria Portugal é psicóloga.
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