Fotografias: Ágata Xavier
Texto: Diana

Mariana Gil tem 36 anos e é o que se pode chamar, sem medo de frases feitas, uma empresária de sucesso. Juntamente com o sócio  e amigo, André, é dona da creche e jardim de infância “Creche e Aparece“, no Parque das Nações, em Lisboa, e dos restaurantes Wood Sushi, também em Lisboa.

Mariana tem uma filha, a Laura, e um filho, o Xavier, que na altura desta entrevista ainda estava na barriga da mãe. Mas saiu, com uns gloriosos três quilos e meio e 50 centímetros.

“Nunca pensei ser mãe, nunca tive esse lado maternal. Mas em 2012 conheci o Miguel e ele queria ser pai. A Laura nasceu um ano depois. Pus-me a pensar, tenho esta idade e a minha irmã costuma dizer uma coisa: não nos imaginamos com filhos, mas não nos imaginamos sem ser avós. Então vamos lá a isso.

O segundo tem a ver com não querer que a Laura seja filha única. Sempre pensámos em ter dois. Ser filho único é muito chato. Os meus pais são filhos únicos, eu não tenho tios, e eles detestavam não ter irmãos.

A escola fez-me olhar para as crianças de forma diferente, principalmente aquela coisa do ‘eu não faria nada assim se fosse mãe’. Todas as teorias que tinha viraram-se contra mim. E ainda bem que fui mãe, estou muito feliz. A maternidade não é o que me define, nem pensar, e não acho que seja fácil ser mãe. Era muito egoísta e ser mãe trouxe-me culpa – sinto culpa por tudo. Estou sempre a gerir isso dentro de mim: a culpa e o medo. Passei a sentir muito mais medo. Antes não. A vida era mais simples.

Eles tiram-nos muito tempo. Hoje, como somos pais mais tarde, não temos a mesma disponibilidade, nem física, nem psicológica. Já tínhamos a nossa vida, as nossas séries para ver, a nossa rotina. Os meus pais foram pais muito cedo, aos 23, e a minha infância foi espectacular. Estavam os dois a estudar e a minha mãe resolveu ficar em casa com a minha irmã, que é mais velha, e comigo. Não tínhamos televisão em casa, só quando fiz seis anos e a minha irmã oito é que uma amiga nos deu uma televisão porque íamos para a escola e não sabíamos nada do que dava. A minha mãe deixava-nos fazer tudo, vestir o que quiséssemos, andar como quiséssemos.

Talvez por isso não quisesse ser mãe, não tenho esta paciência que a minha tinha – e tem, ela é uma avó excepcional. Voltou a ir buscar esse lado.”

Sobre ter vários negócios (e arriscar)

“Tenho um sócio que é muito empreendedor. Quando me perguntam: ‘Qual é o segredo?’ Eu respondo: ‘Arranjem um André na vossa vida’. Ele arrastou-me para isto, a ideia foi dele. Em 2010 não tinha nada que me prendesse a nada. Trabalhávamos os dois na indústria farmacêutica numa coisa que detestávamos e estávamos fartíssimos.

Somos formados em gestão e a abertura da creche foi só mero negócio. Eu nunca quis ser mãe, ele não era pai, mas tinha a noção de que no Parque das Nações faltavam imensos lugares de escola.

Mas a verdade é que sou muito ligada à minha infância e lembrava-me perfeitamente da escola onde andei. Sempre a visitei porque foi um infantário que me marcou imenso. Mantive contacto com a minha educadora e hoje é ela a directora pedagógica da minha escola.

No terceiro ano estávamos cheios. Tínhamos um espaço para 60 miúdos e depois mudámos para um de 150, mesmo ao lado do Centro Comercial Vasco da Gama. E hoje temos lista de espera para berçário.

Aquilo que nos distingue é que adaptamos tudo para os miúdos, da higiene à alimentação, tudo é personalizado e incluído na mensalidade. Os pais procuram escolas que lhes dêem algumas coisas diferentes. Se é a papa X do Celeiro, é essa a papa que comem, se são as toalhitas Y, são essas que a criança usa. Com tanta concorrência tínhamos mesmo de ser especiais e escolhemos a personalização dos nosso serviços. A Fernanda, directora pedagógica, acredita na educação criança a criança, e não num todo. Todas têm um ritmo diferente e isso foi-nos dando nome.”

Sobre Júlia, a bebé que não nasceu

“Estive grávida em 2016 de uma miúda que perdi às 39 semanas. Uma coisa do nada, não se sabe o que aconteceu. Isso mudou toda a minha filosofia de vida. Foi uma tragédia, mesmo. Uma criança normalíssima – na autópsia não acusou nada. Às 38 semanas e cinco dias deixei de a sentir. Estávamos a abrir o nosso primeiro restaurante, o Miguel despediu-se porque íamos ter mais uma filha e ia ajudar no Wood Sushi.

Como é que se recupera de uma coisa destas? Sempre fui positiva. Fui trabalhar no dia seguinte, uma maluquice. Perdi-a em outubro de 2016 e em março caí em mim. Não sei como é que eu própria aguentei, sinceramente. Às vezes penso nisso. Mas acho que somos muito mais fortes do que pensamos.

Li muitas coisas, não sou caso único. Soube de uma miúda que andava no meu ginásio a quem aconteceu o mesmo e ela ficou destroçada. Era o primeiro filho dela. Acho que ser o segundo filho é diferente. O segundo filho só é nosso quando nasce, o primeiro é filho assim que descobrimos que engravidámos. Temos uma relação diferente com o segundo. Ela chamava-se Júlia. Lembro-me que não preparei nada, não pensei quase nisso.

Eu que nem sou dessas coisas disse ao Miguel: ‘Vamos ao hospital, não estou a senti-la’. Quando veio o diagnóstico disseram-me que tinha de fazer o parto. Parto normal. O parto? Mas vou ter de fazer o parto? E depois descobri que as pessoas não falam das coisas más. É tudo espectacular, as gravidezes são lindas e os bebés não morrem. Achava que era uma coisa impensável. Passei a ter ainda mais medo. Foi terrível para nós. O Miguel veio para casa a correr arrumar tudo, o berço, a mala para a maternidade, porque às 38 semanas tens tudo pronto. A cabeça, vais ter aquele filho.

Há duas razões para perder um bebé tão adiantado: ou o cordão umbilical dá um nó e deixam de conseguir respirar ou a mãe tem uma doença auto imune que faz com que o sangue fique demasiado coagulado. Mas eu não tenho esta doença e não havia nó nenhum. Fala-se em morte súbita e penso que cá se tivesse sido cá fora se calhar teria sido muito pior.

Sou muito despachada e não sou de me ficar a lamentar, mas fiz mal. Uma psicóloga explicou-me que é preciso fazer o luto destas coisas, mas eu sou mais ‘sempre a andar’. Achei que sofrer era uma perda de tempo. E fui me abaixo. Fui sozinha. Estava sozinha. As pessoas não falam sobre o assunto, fingem que não tiveste aquele filho. Porque as pessoas não sabem. Só que eu tive aquela filha, ela existiu para mim. Mas tinha outra filha e eu sabia que se me deitasse na cama a chorar não me ia levantar mais. E então vais andando.

Em março comecei a ir abaixo. Fiz uma viagem e tive imenso medo de morrer, comecei com paranóias, fobias, coisas que nunca tinha tido. Pensei que tinha de engravidar rapidamente, de substituir aquela filha com outro. Medo constante que acontecesse alguma coisa à Laura.

Fui a uma psicóloga que me disse uma coisa, depois de me deixar chorar à vontade. ‘Mas qual é o seu problema?’ ‘Que aconteça outra coisa qualquer, respondi’. ‘Mas quer engravidar? Se engravidar pode acontecer outra vez. E se acontecer resolve como resolveu desta vez.’ E é verdade, uma pessoa está sempre a sofrer por antecipação e isso estava a dar cabo de mim.

Quando engravidei outra vez a minha filha perguntou: ‘Este vai nascer?’. Foi muito duro para ela, tinha 3 anos, já tinha perfeita noção, já tinha o quarto, ia ter uma irmã. Hoje se lhe perguntam se gostava que fosse uma irmã ela responde: ‘Já tive’.

Quando soube que era um rapaz fiquei tristíssima. Hoje penso que ainda bem que é um rapaz senão tinha sido bem capaz de a substituir. Só não a chamava Júlia porque as pessoas iam achar estranho. E a verdade é que não se substitui um filho nunca.

Na minha cabeça estou grávida há anos. Estou farta de estar grávida, e ansiosa. Tenho muito mais pressa que ele nasça. Delas nunca contei as semanas, dele estou sempre a contar.

Agora começo a pensar que isto deve ter uma razão qualquer. Como não acredito em Deus agarro-me a isso: uma desgraça destas deve ter uma razão. E realmente a Laura está mais preparada este ano para ter um irmão do que estava da outra vez. Ela é super difícil, precisa de imensa atenção, faz muitas birras. Mas está bastante melhor. Da outra vez a minha vida ia ser um inferno.”

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