Há anos que parecem séculos mas este pareceu-me tão curto como uma estrela cadente. Foi um ano de maternidade caótica mas pacífica, desorganizada mas feliz, cheia de erros mas orgulhosa. Percebi isso quando encaixei a vida em cinco segundos. 

Texto e ilustração: Rita

Estava eu na sala, rodeada de uma grande confusão, brinquedos pelo chão, bocados de tecidos, papelinhos cortados em 1000 bocados, canetas de feltro sem tampa, enfim um enorme caos criativo, pré-festa, quando a minha filha me diz com um ar muito convencido e sabedor que por dentro somos feitos de osso e carne. Carne de frango.

Fiquei estupefacta a olhar para as sardas dela e nesse momento caiu-me uma bigorna de ferro na cabeça: uma resposta de quem tem quase cinco anos!

Aos cinco anos sabemos e dizemos estas coisas preciosas. Sabemos que por dentro somos feitos de carne de frango, que o super-homem vive disfarçado na nossa rua e sabemos que os animais vivem no Jardim do Lógico. Pensamos que se dissermos aos nossos pais que vamos ter dor de garganta a semana toda só para ficarmos a ver os desenhos animados à vontade, eles vão acreditar. Pensamos que decidimos, pensamos que os pais sabem o mesmo que nós. Pensamos que podemos espetar uma ampulheta em cima da mesa e dizer aos nossos pais que têm um minuto para nos pedir desculpa. Pensamos que podemos fazer limpezas com “tregente” como os crescidos fazem. Pensamos que vamos ser cabeleireiras e bombeiros, pensamos que as bruxas fazem sopa na sanita e pensamos que os duendes saem de noite por entre as frestas do soalho. É todo um universo paralelo.

Bigorna 5 anos

Quando a bigorna me caiu na cabeça fiz uma viagem no tempo e percebi que o último ano foi o mais feliz e mais rápido da minha vida.

Durante cinco segundos vi slides diante dos olhos: vi-me com uma barriga descomunal a entrar no hospital, calma como nunca (porque não imaginava o cenário que se aproximava), vi-me a agarrar uma bebé minúscula com as narinas a abrir e a fechar, de olhos bem abertos, sem saber bem o que fazer com ela, vi o cabelo, muito e escuro, despenteado, depois vi uma bebé redonda, parecia de borracha, bochechas a explodir, a seguir vi-me com privação de sono, ar miserável, a bebé rabugenta. 

Depois vi-me a dançar com a bebé, em família, a treinar o andar, a treinar saltos na areia da praia, vi os eternos confrontos de poder entre mim e a bebé, que sempre achou que mandava no pedaço, vi-me cansada, exausta, a chorar, a prometer que nunca mais, vi-me a rir à gargalhada, felicíssima, vi-me a tirar fotografias inesquecíveis na praia, vi o primeiro aniversário. Vi-me a caminho do hospital com a minha filha calma e eu em prantos, vi pés minúsculos pomposamente enfiados em sapatos altos, vi-me orgulhosa, vi-me preocupada, vi as guerras de manhã para vestir, as exigências, as bochechas dela a encher de ar e a soprar de impaciência. Vi-me acordada à noite, a casa escura e o som de alguém que nunca dormia, vi-me assim eternamente, lembrei-me de estar a pensar “porquê eu”, vi a minha filha com os vestidos feitos pelas avós, com a boca cheia de chocolate, vi-lhe os dedos gordinhos das mãos…

Vi, quando ela me disse aquilo, dos ossos e da carne de frango, que continua a surpreender-me a cada minuto desde que existe. E percebi que não há ninguém à face deste planeta que eu conheça tão bem. São segundos que parecem horas em que uma mãe percebe muita coisa.

Se eu desconfiava que o último ano tinha sido muito feliz e muito rápido, agora tinha a certeza absoluta. A coroa de mãe inchada desceu dos céus ao som de cornetas angélicas e assentou com cerimónia na minha cabeça. A minha filha faz cinco anos hoje, dorme há um e eu sou uma pessoa feliz.

No instante seguinte, só para destruir de uma vez a imagem lamechas, ela acabou de comer a banana que tinha na mão e atirou a casca com desprezo para cima da mesa. Eu disse-lhe «Vai pôr a casca da banana no caixote do lixo AGORA!», ela respondeu pespineta, de voz perfeitamente controlada: «Vai tu mamã, não posso ser sempre eu, não é?», e deu um suspiro de quem não aguenta tanta impertinência.

Raios me partam, 5 anos.
Parabéns à desafiadora.

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