Já este blog faz dois anos e mais fará. Obrigada por serem tão fixes.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Tenho 38 anos. Lembro-me dos 18, dos 28, não me lembro dos 8, a memória já não dá para tudo. Aos 18 passava muito tempo sozinha apesar de ter namorado e amigas. Não entrei na faculdade que queria — nem em mais nenhuma porque só pus uma opção — e resolvi trabalhar numa loja e fazer melhoria de nota ao mesmo tempo. O meu namorado estava no Kosovo e só nos víamos quando ele vinha de licença, ou como raio se chamam esses intervalos dos militares. Foi há 20 anos e no entanto lembro-me de quase tudo.

Aos 28 vivia com duas amigas e a nossa vida era um corropio de acontecimentos e vida social. E rapazes. Éramos felizes, víamos séries juntas, comíamos M&M’s enroladas em edredons porque a casa era fria como tudo e só aguentava dois aquecedores ligados ao mesmo tempo. Faltaria um ano para conhecer o homem que me mostrou que afinal não ia ficar sozinha para sempre e um ano para conseguir o emprego que sempre quis. Aos 28 não pensava em filhos, não acreditava em finais felizes e não tinha muitas responsabilidades.

Hoje faço 38. Aos 38 estou casada há seis anos, tenho uma filha de quatro e outra a caminho. Durmo pouco, culpa da gravidez e de umas insónias que me atacam sem dó nem piedade, tenho um emprego que adoro — e que já não é o mesmo há algum tempo — muitos cabelos brancos, responsabilidades várias e enormes, um pescoço fraco e uma propensão para me preparar sempre para o pior. Julgo as pessoas pelo que comem, pelo que vestem, pela forma como tratam os filhos — e logo a seguir dou a mim mesma um sermão mental e juro nunca mais o fazer.

Diana

Hoje faço 38 mas acho que a minha cabeça não tem essa idade, é talvez mais jovem, não sei. Até porque não sei como é a cabeça de uma pessoa de 38 anos, acabei de os fazer.  Faço 38 anos, tenho uma barriga enorme que não me deixa dormir nem estacionar perto de outros carros. Tenho 12 (ou 13) quilos a mais do que quando comecei o round 2 da maternidade, preciso de cortar o cabelo, não aguento mais a chuva nem o céu cinzento e decidi que hoje é um bom dia para ir comprar uma cinta. Longe daqueles 28 anos de vida social agitada e casos amorosos fugazes.

Faço 38 anos e está tudo bem. Tenho um marido espetacular, uma filha incrível, a outra ainda não sei, vamos lá ver se é fixe, amigos que fazem ótimas piadas, família só ligeiramente disfuncional — we’ve come a long way, baby — um site com a Rita que ficou minha amiga quando supostamente já não se faz amigas, e vocês desse lado a ouvir os meus queixumes, tenho algumas ideias para o futuro próximo e uma casa nova para onde irei brevemente e que sinto que não mereço. Aos 38 sinto que não mereço as coisas boas que me acontecem e que um dia isto vai rebentar, uma mania minha que me persegue desde a adolescência.

Faço 38 anos, este blog faz dois e o Dia Internacional da Mulher existe há 109 anos. Parabéns, miúdas.

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