Texto: Rita 

Nos anos 80, quando provavelmente ainda nem existia o termo “parentalidade”, eu vim ao mundo. Tudo era livre e descomprometido. Os meus pais estavam no início da idade adulta e viviam numa aldeia pequena. Eu cresci ali, rodeada de natureza, pinhal, pomares e ruas quase sem carros. Podíamos jogar badminton no centro da estrada porque só passavam carros de 40 em 40 minutos e andavam devagar.

Havia burros, ovelhas a pastar, pessoas a caminhar nas bermas da estrada com alfaias agrícolas. Quando as minhas tias se deslocavam na bicicleta eu ia muitas vezes com elas. Era tão pequena que cabia no cesto, por cima da roda da frente. Ficava com as pernas cheias de vergões, mas quando descíamos a alta velocidade era óptimo (sem capacete, claro). Passava tardes inteiras na loja dos meus avós. Enchia a barriga de biscoitos que eram vendidos a granel em grandes caixas de cartão, ou bolachas de baunilha com creme.

A minha avó passava a manhã inteira com tachos de barro ao lume e cheirava sempre a refogado. Dava-me arroz de cabidela e eu adorava porque pensava que era de chocolate. Quando ia para casa dos outros avós passava horas no campo a explorar celeiros antigos, a fazer torres de caixas de fruta na eira para construir castelos e fazer papas de terra escura misturada com água. Temperada com ervas daninhas. Também fazia pão no forno com a minha avó e às vezes ela fazia-me vestidos na máquina de costura.

Depois veio o meu irmão. Trepávamos às oliveiras, enterrávamos tesouros no quintal. No verão eram os cornetos, eram as amoras cheias de pó que apanhávamos para um cestinho e comíamos logo sem passar por água, eram as férias no parque de campismo, eram as idas à Nazaré, era a ausência de horas marcadas. Não era uma miúda da rua, os meus pais não me deixavam andar sozinha, mas a forma como cresci e fui educada era livre. Os meus pais eram sempre os mais fixes, diziam quase sempre que sim aos meus caprichos e a vida era cor de rosa choque. Como era suposto ser nos anos 80. Mas a ideia não era escrever um texto saudosista, a ideia era contar duas histórias diferentes.

Passados 30 anos a minha filha nasceu. Tudo à volta da parentalidade é estudado e cuidadosamente analisado. Há dicas que nos orientam durante todo o processo. Começa logo no hospital, onde explicam aos pais como proceder, a importância das rotinas, as opções disponíveis na grande saga que é a maternidade. Nós sabemos realmente o que é melhor para o nosso bebé/criança. Sabemos que para os mais pequenos fará toda a diferença ter pais tranquilos, sabemos que uma criança com rotina será para sempre uma pessoa mais segura, sabemos que as sestas são essenciais, que os doces fazem muito mais mal do que se pensava, que respostas dar em caso de medo, de birra ou de mau comportamento.

Não digo que todos o fazemos da mesma forma, mas para quem quiser há (e ainda bem) resmas de informação. Cá em casa não somos especialistas em infância, tentamos fazer o melhor que conseguimos para educar a miúda seguindo os nossos instintos e apesar de eu ter sido uma criança feliz, tenho consciência de que a forma de educar em 2018 é praticamente oposta à de 1980. Não é só porque os tempos mudaram, é porque somos pessoas diferentes. Portanto é fácil perceber que nesta coisa da parentalidade não há modelos a seguir nem fórmulas mágicas. Hoje há tablets. É impossível copiar o que os nossos pais fizeram naquela altura.

Viajo pelas minhas memórias e tento recordar o que me fez mesmo feliz nos anos 80 junto da minha família: as mãos na massa do pão, mexer na terra, comer gemada, o cão Kurica, enfiar as mãos no barro mole que a minha mãe trazia do oleiro, gelados, gelados, gelados, vestir a roupa dos anos 60 e fazer teatro, o meu nome a ecoar pela rua na hora de ir para casa (“oh Riiiiiiita, tu não ouves?!”), cobertores com 3 quilos, castelos de caixas de fruta, pedalar com força na bicicleta no meio do pó do caminho, os ramos do dia da espiga, a caixa das bolachas, carnaval com brilhantinas na cara, a onda fria da Nazaré, o Bambi, apanhar conquilhas, andar na caixa aberta da carrinha com o cabelo a esvoaçar, bater as claras em castelo, a groselha com gelo, comer caranguejos pilados sentada num degrau, patinar, construir um baloiço, tardes com os amigos no meio dos fetos, tendas, o conforto de um saco de água quente, banheira cheia com espuma, pipocas, os Led Zeppelin, a Janis Joplin, os Rolling Stones, a Tina Turner em discos de 33 rotações, chávenas de cevada, o Tom Sawyer na televisão, passagem de ano a dançar, tiborna.

É aqui, nestas memórias e nesta tradição, com tudo o que tem de certo e errado, que vou tirar as melhores ideias para a minha filha ser feliz.

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2 Comentários

  1. Adorei!

    Consegui fazer uma curta metragem real na gaveta da
    minha memória de todas as imagens que escreveste….

    Parabéns menina” Papa Letras”
    Obrigada

  2. Clara Fino

    A beleza com que escreves é equiparavel à infância nos anos 80. Gostei de te ler. Beijinho grande

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