Rufar de tambores. Tem dois olhos, uma boca, duas orelhas, cinco dedos em cada mão. Mas a julgar pelo tamanho da barriga, pode ser um elefante.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Tenho um problema com rapazes que só há pouco tempo percebi. Não gosto muito deles. Quando são pequenos, claro. Dos crescidos gosto muito, nada contra, pelo contrário. Desde que tenham mais de 20 anos, está tudo bem.

Não sei lidar com rapazes, não os percebo, não gosto daquela agressividade, as brincadeiras físicas com tiros e socos, a energia inesgotável, toda aquela postura abestalhada, o fedor que exalam a partir de uma certa idade. Demoram mais tempo a crescer, a falar, a andar sem tropeçar a todo o instante. Foi por isso que quando engravidei e pensei que poderia ser um rapaz, comecei a ficar ligeiramente aflita. E agora? Como raios vou educar um rapaz?

A verdade é que, quando era pequena os miúdos eram o meu maior pesadelo. Eram eles que mais me gozavam, que mais me assustavam, que empurravam, corriam atrás de mim com gafanhotos – bicho que ainda hoje não consigo tolerar – que mais maldades faziam. Não gostava de brincar com eles, não gostava da presença deles, metiam-me medo. Tudo começou na escola primária, culpa do Filipe Campos.

Era um miúdo cabeçudo e orelhudo, com cara de malandro e mania que era mau, mas muito inteligente. A professora adorava-o e ele era um diabo. Mas éramos amigos, naqueles dias em que ele não se armava tanto em parvo, e cheguei a ir brincar a casa dele. Mas mesmo tão pequeno (literalmente pequeno, ficou mais baixo que eu) era cruel. Gozava com características minhas no meio da aula ou nos intervalos. Um miúdo insuportável. Encontrei-o anos mais tarde, já andava no secundário, e ele continuava um parvalhão com a mania.

Fora da escola, na zona onde eu vivia, com prédios e pracetas, havia outro rapaz que me fazia a vida negra. Não me lembro do nome dele, mas acho que era Hugo. Ou Yuri. Sei lá eu. Era um estúpido e brutamontes. E eu uma mariquinhas. Combinação explosiva. Esta perseguição masculina manteve-se até ao 9.º ano, mais ou menos. A culpa era certamente minha, devia passar uma imagem qualquer muito irritante para os rapazes que bastava olharem para mim uma vez para me elegerem saco de pancada ao nível do gozo e abuso verbal. Todos os anos havia um cabrão para me atazanar o juízo. Depois cresci, comecei a namorar e isso acabou. Excepto a ligeira aversão a rapazes que ainda não tenham chegado a maioridade.

Elefante

A boa notícia é que vou ter outra miúda e eu adoro miúdas. São espertas, fofinhas, carinhosas, pequenos seres amorosos que entendo e identifico. Vem aí mais uma miúda que vou criar para ser forte, independente e com que nenhum rapaz goze, sob pena de apanhar um pontapé nos tomates.

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