Estar grávida é um estado de (des)graça que interessa bastante ao mundo no geral excepto quando estamos em filas. 

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Toda a gente gosta de uma grávida. Toda a gente dá os parabéns, olham para a barriga com carinho, cedem a sua vez para a casa de banho, não cedem nas filas do supermercado mas isso é outra guerra, perguntam se é menino ou menina e desejam horas pequeninas. Uns fofos, no geral. Só que a fofice, às vezes, é o oposto do que uma grávida cansada, inchada e zangada precisa. Às vezes uma grávida precisa de solidariedade e não de suspiros seguidos de “que saudades” enquanto olham para o nosso ventre redondo.

Assim, é necessária muita concentração e respiração especializada para que cabeças não rolem no asfalto. Uma grávida é um vulcão prestes a entrar em erupção, excepto aquelas que adoram a cena e ouvem passarinhos a toda a hora e correm maratonas – com essas não quero conversas.

  • “Está de quanto tempo? Só? Tem uma barriga muito grande!” – Aqui o ataque é a melhor defesa. Assim que perguntam de quanto tempo estou respondo que estou de menos do que parece. Depois atiro com as semanas/meses e digo com um sorriso forçado que “faço barrigas muito grandes”. Na verdade só tenho vontade de mandar para a p*** que as p****.
  • “Olha a grávida, deixa a grávida passar, a grávida tem prioridade”. – A grávida tem nome, cara***. Aqui é necessária uma respiração pranayama e repetir para dentro que as pessoas têm boas intenções, como um mantra.

Joelhos

  • “Só porque está grávida passa à frente? Eu tenho problemas no joelho”. – Esta é a reação de uma ou duas alminhas cada vez que a pessoa da caixa diz à grávida para passar à frente. A minha vontade, normalmente, é atingir a pessoa num olho com um esguicho de Sonasol Verde enquanto grito impropérios mas em vez disso digo humildemente “deixe estar, não é preciso” até toda a fila estar do meu lado e contra a pessoa que sofre dos joelhos. Incha, porco.
  •  “Quatro quilos num mês?? Não poder ser.” – Aqui vale tudo, desde argumentar que a balança só pode estar estragada, até jurar a pés juntos que não faço ideia de como aquilo aconteceu e que tomo imenso cuidado. A minha vontade é pegar na balança e atirá-la pela janela mas em vez disso prometo portar-me bem.
  • Quando alguém ousa apitar-me no trânsito ou fazer qualquer espécie de comentário. – Transformo-me numa carroceira e digo todas as asneiras que conheço. Mesmo que a minha filha esteja no carro. Só não saio do veículo para arranjar confusão porque, enfim, estou grávida.