Andreia Surgy é psicóloga clínica, trabalha com miúdos e está aqui para nos dizer umas coisas, a nós, pais estafados. 

Texto: Andreia Surgy
Ilustração: Rita

Numa altura em que se fala tanto de birras, educação, aconselhamento parental, não consigo não pensar e aproveitar para falar também do medo. Do medo de ralhar, de dar uma palmada, de não dar a palmada, medo de traumatizar, medo que os filhos se zanguem e isso os faça rebeldes, enfim, medo de educar.

Criou-se a ideia – errada – de que os pais têm de ser amigos dos filhos, explicar-lhes o porquê de tudo: “porque sim” ou “porque eu estou a dizer”, deixou de ser suficiente.

Vamos lá por partes:

Não devemos explicar nada? Claro que podemos e devemos explicar o porquê de algumas regras, mas não sempre, não sobre todos os assuntos e não em todas as idades. Como em tudo na vida, o bom senso terá de prevalecer.

Não se explica tudo sempre, não se explica tudo em todas as idades e – para dificultar mais a situação – ainda há coisas que se explicam numas idades que não se explicam noutras, e assuntos que às vezes se explicam e outras vezes não. Com que critério? O nosso (dos pais).

O que me leva a outro ponto da minha reflexão: o que é isto do critério dos pais? É, naturalmente, aquilo que faz sentido para cada um, naquele momento, com aquele filho naquela situação. Não temos de justificar, temos só de assumir e aceitar as consequências dos comportamentos que temos. Vem a velha história da Acção-Reacção – toda a acção tem uma reacção, todo o comportamento gera um (ou mais) comportamentos e é para isso que temos de estar preparados para receber e aceitar.

Pais amigos

Os filhos vão zangar-se com os pais, vão desejar ter nascido noutra família, haverá alturas que até vão pensar que não gostam dos pais, outras em que não gostam mesmo. E os pais têm duas hipóteses: continuam firmes, ditando e impondo regras, enfrentando o medo que têm que, de facto, os filhos não o achem tão fixe quanto eles gostariam, mas educando conforme os seus princípios e valores, ou cedem às lágrimas e birras, criando sem dar por isso pequenos ditadores que crescem convencidos que podem tudo e que aos 11 anos batem nos pais. Estas são as crianças que ao primeiro “não” que ouvirem sofrerão muito mais. Temos de escolher, optar, certos, porém, de que não será uma decisão fácil.

Todos os filhos um dia vão ter vontade de chamar estúpido ao pai ou à mãe, a diferença está entre os que vão efectivamente chamar porque não sofrerão qualquer consequência, e os que se vão limitar a pensar – o pensamento é livre – porque sabem que a falta de respeito não será tolerada.

Nisto de educar, ninguém faz mal porque a verdade é que todos tentam fazer o melhor que conseguem, ainda que nem sempre isso seja o suficiente, impregnados por aquilo que se chama Amor de Pai e Mãe que de tão grande não tem tamanho.

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