Comecei a ouvir falar sobre amor incondicional de pais para filhos ainda estava nas aulas de preparação para o parto. Questionei-me sobre o que seria tal coisa, mas claro, é impossível prever sem os ter. 

Texto e ilustração: Rita

Uma mãe que não dorme tem como principal preocupação manter o seu bebé alimentado, limpo, saudável e contente. São os mínimos. Tenta também desesperadamente manter-se a ela própria alimentada, limpa, saudável e contente mas nem sempre é possível. Todo o resto do tempo em que não está ocupada a fazer isto ela está a dormir, se lhe for permitido.

Depois quando a licença acaba inicia uma espécie de vida zombie e adiciona a estas preocupações-base uma resma de preocupações profissionais e de vida no geral: ser pontual, sair de casa sem bocados de banana ou baba na roupa, ter comida no frigorífico, enfim, é mais ou menos engolida pela rotina e dá de caras com o modo de existência “sobrevivência”. Isto foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Adorei sem sombra de dúvidas o meu pequeno bebé, só que hoje, quatro anos passados, descobri que todas aquelas emoções novas que estava a sentir, eram só uma fina fatia do bolo.

Actualmente as minhas amigas/os que têm filhos da mesma idade começaram todos a pensar em ter segundos filhos. Eu não. Ainda não sei se acontecerá e de momento não penso nesse assunto. Porque agora estou concentrada a gozar e a partilhar em família o primeiro ano de vida com uma filha que dorme. Estou a descobrir que é espectacular.

E como quem tem uma epifania, como quem nunca sentiu o ataque de ocitocina que é suposto ter-se quando vem um recém-nascido, dou por mim a pensar “afinal é isto, esta onda crescente que começa nas plantas dos pés e sobe devagar pelas veias e atinge de forma fulminante o coração e o sistema nervoso central, que faz as pessoas terem filhos!” E penso também: “Mas espera, porque é que eu não vi isto antes?” E o meu bom senso responde, cheio de paciência: “Porque estavas a morrer de sono, espertinha! Vai tomar café, despacha-te”.

Menina Flor

E agora vejam as coisas com as quais eu me deleito:

  • Observar secretamente a minha filha a dormir com cara de lua cheia (iuhhuuu);
  • Ver de perto as 750 sardas castanhas claras que lhe estão a inundar sorrateiramente a cara, enquanto ela dormita;
  • Ouvir as respostas ariscas de quem pensa que sabe mais que eu;
  • Ver as acrobacias de suposto ballet-ginástica-rítmica-acrobática-karaté-bollywood-dance na sala;
  • Ouvir versões da Sharon Jones em “inglês” e com groove infantil;
  • Com os argumentos apresentados para lhe comprar determinada coisa desnecessária;
  • Com a cara de diabrete que faz quando está (mal) escondida debaixo de uma mesa e pensa que ninguém a vê;
  • Ouvir coisas inesperadas do género: “Não mandas em mim porque também tens pais, também és filha!” Pimbas, aguenta esta!;
  • Com as desculpas esfarrapadas que me apresenta para faltar à escola;
  • Quando me pergunta indignada se eu acho que há vacas na praia;
  • Coisas deste tipo. Não é lindo?

É. Não há nada mai lindo.