Depois de semanas a ensaiar o grande evento do ano aconteceu numa sala abafada e um palco minúsculo de onde não dava para ver todos os putos. Mas foi hilariante.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Não se pode contar com os miúdos para nada. Horas de dedicação na creche para lhes ensinar coreografias simples, falas curtas e pequenas acções que constituem a peça de teatro de Natal e os sacaninhas chegam ao dia e não fazem nada do que foi combinado. Para não falar do empenho de algumas mães na produção do fato porque a filha vai ser uma ursa e não há orelhas de urso em lado nenhum, raios partam, só de felinos no geral, e faltam dois dias para a peça e nada de roupa.

Mas o verdadeiro empenho e dedicação é das educadoras e auxiliares. Elas abraçam a maratona de frustações – lágrimas, dramas, medo do palco, putos com as caras já todas borradas, cheios de calor e sede – com a alegria e entusiasmo de quem ganhou o prémio máximo da raspadinha. Elas seguem o guião, elas não vacilam, nada lhes abala a convicção, nem o calor abrasador e a falta de luz que torna quase impossível a tarefa inglória de fotografar a prole de cada um. Elas não tombam.

Coro

Elas não esmorecem com alguns putos que mais parecem zombies perdidos e ajudam na coreografia, sem parar, com uma energia que a maioria de nós perdeu assim que começou a ir à escola primária e a ter de acartar com quilos de livros. Elas não fogem aos gritos nem quando abrem as hostilidades para o lanche, um bando maluco de miúdos que só quer açúcar, mais os pais e os avós que também quiseram ver os netinhos, tão lindos, a encher um pouco mais um espaço que por si só já era diminuto. E aposto que no fim ainda tiveram de arrumar tudo – se calhar em coreografia optimamente sincronizada para compensar a falta de talento dos putos. Para elas, uma vénia. Eu teria começado a distribuir chapadas pelos miúdos, a gritar com o calor, terminando numa fuga em grande estilo. Mas isto sou eu que acho que as crianças não deviam cantar nem dançar em público – já há castigos suficientes no mundo em geral. Além de esganiçados os miúdos da creche têm o sentido rítmico de uma betoneira.

Ainda assim não há como evitar uma lágrima de comoção quando a nossa filha ultrapassa a vergonha que lhe aprisiona a espontaneidade e começa alegremente a dançar o twist ao som de “Let’s Twist Again”, uma óptima canção para terminar um espectáculo de Natal, o mundo está farto das canções chatas da época. E por isso, um brinde às educadoras que aturam mais os nossos filhos do que nós – e nós sabemos como eles são difíceis –  pelo caminho ainda lhes ensinam umas cenas e de certeza que não ganham o suficiente para andarem aos saltos num palco com 40º e a meia luz.