Andreia foi mãe há dois meses e tem coisas para partilhar connosco. Como por exemplo as incríveis noites que um recém nascido proporciona.

Texto: Andreia Martins Guedes
Ilustração: Rita

Convenhamos que se durante o dia é difícil lidar com o choro de um bébé com sono, com fome, com cocó, com xixi, com tédio, com mimo, com frio, com calor e outros tantos bons motivos para abrir a goela… à noite a tarefa toma proporções estoicas.

É pois à noite que começam a surgir os primeiros sinais de parvalheira ao cubo (nos pais entenda-se): o bébé chora e imaginamos que vai ser assim para sempre, já nos vemos com olheiras até aos joelhos, quais escravos de um pequeno tirano de chupeta em riste. Tenta-se tudo para satisfazer o déspota: dar de mamar, mudar a fralda, dar colinho, white noises, nada funciona e já achamos que nos calhou o bébé com o pior feitio da história. Com os cabelos em pé, já lhe respondemos como se fosse adulto enquanto o imaginamos a voar pela janela.

Rei bebe

Depois sentimo-nos mal e imaginamos que deve ter um problema grave que o faz chorar, o mais certo é ser uma maleita daquelas raras, se calhar é o esófago, agora que pensamos melhor ele bolsa muito. Deve ser isso de certeza. Temos de ligar à pediatra. Mas no entretanto, aquele pequeno diabo faz um cocó sonoro, cala-se muito caladinho e até nos brinda com um sorriso maroto que nos faz de imediato sentir os piores pais do universo.

Depois de mudar a fralda, deitamos o anjinho que entretanto já dorme e tentamos dormir também. Só que uma vez mais a fantasia continua, estranhamos o sossego repentino e “Just to make sure” vamos sentir a respiração do querubim com a ideia da “morte súbita” a pairar no ar… uff ele está a respirar. E voltamos a tentar adormecer. Nem conseguimos imaginar se uma tragédia dessas se abatesse sobre nós e os pensamentos em torno de tragédias continuam. Eventualmente adormecemos com estes doces pensamentos e dormimos mais duas horas envoltos em pesadelos contínuos até que o rebento volta ao modo “exorcista” e acordamos para mais uma ronda de delírios até de manhã.

Curiosamente, com o nascer do dia regressa o bom senso e a inteligência emocional, ainda que em défice na mãe por culpa das hormonas, com o amanhecer já atinge níveis aceitáveis que nos permite ser cuidadores com alguma sanidade mental.

É então por estas e muitas outras situações reais que tomamos a liberdade de alterar o ditado popular “à noite todos os gatos são pardos” para “à noite todos os pais são parvos”, porque cá em casa não há gatos, só noites insanas embaladas pelo choro de um recém nascido!”