Damos muitas escolhas, aparamos muitos golpes, somos moles e não estamos para nos chatear. E, principalmente, queremos ser o oposto dos nossos pais. Mas será que isso é bom?

Texto: Diana
Ilustração: Rita

“Queres maçã?”
“Não.”
“Kiwi?”
“Não.”
“Mirtilos?”
“Não.”
“Tangerina?”
“Não.”
“Qualquer dia vou deixar de te perguntar o que é que queres e pôr-te a fruta à frente e acabou-se.”

Este diálogo aconteceu há uns dias, na cozinha. O meu marido olhou para mim e disse: “Nunca em toda a minha vida a minha mãe ou pai me perguntaram que fruta eu queria comer.” E com razão.

Esta minha mania de querer dar-lhe escolhas para que não se sinta completamente controlada, por vezes tem o efeito contrário: o de criar uma fedelha que acha que pode. E a quantidade de frutinha que a menina pode escolher? Mirtilos? No meu tempo havia laranja, maçã (às vezes só reineta) e pêra e é se queria. E comia o que me punham à frente e calava.

Fruta

A vontade de ser completamente diferente dos nossos pais impulsiona esta preocupação em deixá-los ser, estar, formarem-se, e outras coisas bonitas que depois não resultam lá muito bem. Falo por mim, claro. A verdade é que os putos se esticam como os elásticos e rapidamente começam a pôr as garrazinhas de fora com quereres e opiniões. Detesto a expressão “as crianças não têm querer” — claro que têm, são pessoas, não são bichos — mas há que saber traçar uma linha. Têm quereres, sim, mas não sempre nem com todos os assuntos. Às vezes é preciso comer e calar, vestir o que lhes mandam e não abrir o bico para reclamar.

Respeitamos a sua personalidade até à exaustão e confundimos mimo e falta de educação com personalidade. Ai, ela está cheia de sono, por isso é que reage assim. Ele está cansado, por isso é que está a portar-se mal. Ou então precisa de dois ou três gritos, duas palmadas no rabo e olhos bem abertos para se deixar de merdas.

Pergunto-me se por vezes exagero na liberdade de escolhas que lhe dou, se estarei a habituá-la mal, a educar uma fedelha mariquinhas. Pelo sim, pelo não, vai deixar de escolher a fruta que é por causa das coisas.