Vamos espreitar a saga do pai que não sabia ao que ia? Bisbilhotar a vida dos outros é sempre divertido. Vamos a isso.

Texto: Pai preocupado com os homens em geral e com os futuros companheiros de profissão em particular
Ilustração: Rita
Bonito bonito era eu dizer que não foi assim, que a coisa aconteceu de forma progressiva, que foi um amor que foi crescendo e crescendo de forma desmedida, como se fosse uma coisa vinda do reino da loucura paternal. É que não podia ter sido diferente.

Os primeiros meses fizeram-se de sobrevivência, a minha e a das outras pessoas que pela mesma casa viviam. O mais importante era sempre respirar, comer, beber água, manter algum nível aceitável de higiene, tentar apanhar um sol sempre que possível e não perder os sentidos pelo caminho.

Isto porque os mesmos primeiros meses fazem-se de exigência, muita exigência, e como não há feedback, como aquela pequena criatura não diz absolutamente nada, não reage a não ser motivada por instintos, é difícil estabelecer uma relação que vá além dessa existência mamífera. Até que acontece alguma coisa que muda tudo.

Bom, não me perguntem que coisa é, quando é que aconteceu, o que é fez mudar a situação, que horas eram e que tempo fazia. Isso eu não sei. Mas sei que de repente senti-me como um pai, senti que tinha alguém que não só dependia de mim como gostava de mim. É uma coisa no olhar, no sorriso, na cor que as bochechas ganham, na eficácia da festinha que um gajo dá na pequena pessoa e que de repente a acalma de todos os males.

E é também uma noção de saudade que antes não existia: se até essa epifania acontecer qualquer desculpa era boa para estar fora de casa e do raio de acção do infante, a partir daquela altura comecei a sentir a verdadeira mariquice de ser pai, a fazer perguntas a toda a hora, se estaria tudo bem ou não, o que é que eu andava a fazer mal, como é que iria impedir que qualquer mal do mundo afectasse aquele meu produto.

Pai amor

Não me entendam mal, continuei a ansiar por momentos de liberdade, por folgas em que o simples estar sem fazer nada — absolutamente nada, respirar bastava-me — era o que mais queria. Mas tinha chegado finalmente o momento em que já não via a minha breve existência neste planeta sem a presença daquela coisa pequenina que haveria de ficar bem grande. Ainda assim, há umas cinco ou seis coisas que vocês precisam saber, se é que se vão meter nisto. E é essa aula que vos prometo aqui e agora. Me aguardem.