O nosso pai de serviço continua a sua saga sobre a paternidade. E nós agradecemos. Vamos até ao dia em que a criança nasceu.

Texto: Pai preocupado com os homens em geral e com os futuros companheiros de profissão em particular
Ilustração: Rita

Diz que há duas opções para isto dos partos: ou é quando calhar ou marca-se uma data, coisa fina, como quem vai à revisão com o veículo. A mim calhou-me a primeira opção: foi quando calhou. Foi mais ou menos, agora que me lembro. Já estava para lá do tempo, a criança não saía mas na maternidade houve uma bonita manhã em que disseram “já não há espaço nessa barriga, hoje vai ter que sair”. E viva a gentileza quando o mundo está prestes a desabar.

Era de manhã, antes de almoço. Sou capaz de jurar que não comi nada. Devo ter apostado as fichas todos no valor que a cafeína pode ter e pronto. Houve tempo de ir a casa buscar “umas coisinhas” e olhar para aquele espaço bonito uma última vez antes que se transformasse na masmorra mais temida e menos festiva. Ao voltar ao hospital, a conversa do costume: “Agora vá dar umas voltas, ande a pé, que isso vai demorar”, enquanto acrescentavam aqueles termos técnicos e centímetros e nomes de coisas que vão enfiar pela veia da mãe se a cria não quiser sair.

Fast forward para o que interessa: a mãe na cama da maternidade, ligada a imensas coisas, a epidural a fazer o que tem a fazer e aquela maquineta dos números das contrações a mandar avisos. Mais uma. E depois outra. E outra. Dez horas mais tarde, na manhã do dia seguinte, acontece. Sem música de fundo, sem uma luz de um sol que até ali nunca se tinha visto, sem anjos, trombetas, ouro a cair do céu ou mulheres nuas a limpar-me o suor. Nada. Absolutamente nada. Apenas choro, um ser minúsculo cheio de frio e fome, razoavelmente feio para aquilo que imaginava e em menos de nada estava fora dali porque a mãe tinha de ir não sei para onde e este que vos escreve já não podia estar lá.

É isto. É assim que nasce uma criança e é assim que um pai passa por ela. “Ah, mas tens sorte, porque não sofreste, não carregaste com o bebé, não deste à luz, não ficas na maternidade.” Pois não. É tudo verdade. E o pânico de ir para casa sozinho? E tentar dormir, “aproveitar para descansar”? Deve ser verdade. E manter aquela alegria incrível quando nos dão os parabéns e tal, e um gajo sem saber porque é que aquelas pessoas estão tão contentes? E ler as mensagens da mãe, que claramente não está a lidar bem com aquilo tudo e do lado de cá não há nada a fazer? E aquela jantarada com os amigos, “bora lá festejar”, e a vontade maior é de ir embora porque aquilo de repente não está a fazer muito sentido?

Pai panela

A cabeça do pai é uma panela de pressão, com uma saída de ar pequena, minúscula. Não rebenta mas também não alivia. E regressar à maternidade para ir buscar mãe e criança é subir o lume, é meter a lenha toda no forno e aguentar a cozedura. Ai aguenta aguenta. Ninguém sabe como mas aguenta. Um breve olhos-nos-olhos chega para perceber o que aí vem: ninguém sabe. Dá uma bruta vontade de rir agora, mas na altura não dá vontade de nada, absolutamente nada. Talvez de fumar. Dá muita vontade de fumar. Mas só nos intervalos dos trabalhos forçados. Da próxima vez falo-vos disso.