Numa estreia absoluta no Amãezónia, um homem agarrou-se ao teclado e decidiu escrever-nos um texto. Na verdade é uma saga em que explica a vida selvagem de ser pai. Este é o primeiro. 

Texto:  pai preocupado com os homens em geral e com os futuros companheiros de profissão em particular
Ilustração:Rita

Nunca tinha pensado em ser pai. Mas por que raio de razão é que havia de o fazer? Ser pai sempre me pareceu a pior ideia do mundo. Só problemas, dificuldades, exigências e retorno zero garantido. E o que aconteceu quando acabei por ser pai? É uma história tão boa que decidi dividi-la por capítulos. E decidi também pedir autorização às autoras deste blog para publicar estas curtas mas sentidas confissões. Porque este é um blog sobre a loucura que é ser mãe, mas importa explicar que um pai também pode ficar parcialmente demente com tudo isto.

Tudo começou com uma pergunta. Lembro-me como se fosse hoje – não é brincadeira, lembro-me mesmo como se fosse hoje. Estávamos os dois no sofá, em frente àquele pequeno nada que é tudo ao final do dia chamado televisão. Parece que foi há tanto tempo… e na verdade foi. Nem sequer havia Netflix, coisa que hoje não parece possível.

“E se tivéssemos um filho?”

Assim, sem aviso, sem preparação, nada. Uma pergunta que foi um tiro e que me deixou na altura com a única resposta possível: silêncio. Absoluto e gelado silêncio. “Mas como assim? E agora, o que é que eu digo? Se disser que sim estou a contrariar todos os meus receios… mas se disser que não estou a contrariá-la a ela… ou será que isto é um teste?”

Não me lembro do que respondi, não faço a mínima ideia, mas sei que passados uns meses (epá, provavelmente passado um ano, digo eu) estava a receber a notícia, depois de uma noite de nervos que se segue à confissão “de manhã tenho de fazer um teste porque acho que, enfim, parece-me que, bom, sabes, isto está atrasado…”.

Não posso falar pelas mulheres pelas razões óbvias, mas posso falar por mim e pelos homens no geral, porque entretanto a vida deu-me a oportunidade de fazer uma espécie de estudo de mercado e tirar conclusões. E a mais importante é esta: quando um homem sabe que vai ser pai, fica com o sangue nos pés, começa a respirar devagar, cada vez mais devagar. Põe uma mão na parede e a outra na cabeça e não sabe o que fazer. Sente-se perdido e só não chama pela mãe porque isso seria ridículo. Bom, talvez uns quantos chamem pela mãe, pelo menos ao telefone.

Pai numa bolha

Depois, claro, é preciso cair na realidade. Se vai acontecer, vai acontecer, é preciso encarar a situação de frente, não fugir e assumir as responsabilidades. Vai daí, o que fazem os homens? Aproveitam todos os meses que separam a notícia do evento em si para viver como se nada estivesse a acontecer. Claro, é preciso estar atento, apoiar a futura mãe em tudo, partilhar de todas as dores e incómodos na medida do possível. Mas enquanto não chega a data, minha gente, é viver numa bolha enquanto há tempo, porque ele corre sem aviso.

Mas sim, a bolha rebenta, o dia chega e tudo muda. Antes existem os falsos alarmes, que servem para gerir os ataques de pânico, que tentamos esconder com toda a capacidade que a Natureza nos deu. Mas apesar dessas horas de preparação, quando a coisa de facto sucede ninguém imagina o que passa pela cabeça e pelo coração de um novo pai. Nem o próprio progenitor faz ideia do que está a suceder e é esse dilema que é preciso aprender a resolver. Esse e ter uma criança e uma mãe em casa. E vocês sabem lá o que é lidar com uma mãe pela primeira vez, vocês sabem lá. Mas eu prometo contar-vos tudo.