A Francisca está na Coreia do Sul, a Rita foi parar ao Japão, Cláudia vive feliz no Tennessee, nos EUA, Marília escolheu a República Checa, a Mafalda está em Angola, a Joana foi parar à Noruega, a Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Francisca Figueiredo
Ilustração: Rita

Francisca Figueiredo ainda não sabia o que era ter um bebé quando, há dois anos, se mudou, com o marido, para “a terra onde nasce o sol”. Viviam em Espanha mas sem empregos assim tão bons e quando o marido recebeu uma proposta de trabalho na Coreia do Sul, não pensaram duas vezes.

Grávida da primeira filha, mudou-se “de armas e bagagens, e uma pitada de inconsciência.” Hoje, além da Leonor, tem o Francisco, acabado de nascer.

Francisca é ilustradora e tem trabalhado maioritariamente para jogos e livros escolares. “Mas desde que a Leonor nasceu que ser mãe passou a ocupar a maior parte dos meus dias.”

Sobre criar os filhos longe de casa

O que me custa mais é criá-los sem ter a família por perto. São oito horas de diferença entre Portugal e a Coreia e até mesmo falar por skype com os avós e tios se torna difícil. Para além disso os miúdos dependem de nós para tudo, mãe e pai 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se um de nós tem o azar de ter gripe nem imaginam o caos que se monta.

Mas se as dificuldades são muitas as vitórias também. Acho que a maior vitória tem sido ver a Leonor crescer confiante, conversadora e alegre. Parece bastante simples, eu sei, mas eu sempre temi que ela se sentisse isolada, diferente e que esta nossa decisão de viver fora de Portugal pudesse levá-la a sentir-se inadaptada.

Sobre o ritmo de vida aí?

Pali-pali! É das primeiras palavras que se aprende ao viver na Coreia e quer dizer “rápido, rápido”. Faz parte da ética Coreana, trabalhar rápido e muito. Para terem uma ideia, durante o primeiro ano na Coreia vivemos em Daejon a sul de Seúl. De um dia para o outro o chefe do Hugo informou-o de que se iam mudar para  Seúl. Tivémos menos de 2 semanas para encontrar casa, assinar contracto, empacotar tudo, deixar a casa antiga, fazer a mudança, desempacotar a tralha toda e começar a viver e a trabalhar numa cidade nova. A nós isto custou-nos, para os Coreanos é perfeitamente normal.

mae tigre

Sobre creches e escolas

Neste tópico o choque cultural foi enorme. A sociedade Coreana é matriarcal e bastante tradicional. Ser mãe solteira é coisa de que não se ouve falar. Num casal assim que nasce o primeiro filho o comum é a mãe passar a tomar conta da criança e o pai ser responsável por trazer dinheiro para casa. Mas não pensem que isso é sinal de submissão por parte da mulher. “Quem manda lá em casa” são elas. O papel da mulher na dinâmica da família não é levado de ânimo leve, elas sentem-se e são responsáveis por garantir a excelência e o sucesso das gerações vindouras. Há até quem lhes chame “tiger moms” pela dedicação e pela exigência com que encaram esta tarefa.

Dito isto é fácil entender que há poucos infantários e nos poucos que há é super difícil encontrar vaga. A Leonor ficou comigo em casa, não só por este motivo mas também por escolha nossa. Para evitar o isolamento que pode surgir ao estar sozinho com um bebé em Seúl uma grande amiga ensinou-me a fazê-lo “à Coreana”! O segredo está em ir a Baby Cafes, fazer parte de grupos de mães, planear “play dates” e frequentar o centro de apoio para as crianças do nosso bairro (onde há biblioteca, biblioteca de brinquedos, e salas temáticas para os miúdos brincarem).

Até entrarem para a primária os miúdos dos têm uma infância bastante feliz e saudável. A meu ver o problema começa ao entrar para a escola. A exigência é imensa, a competição inacreditável e os miúdos passam o dia inteiro a ter aulas e depois das aulas têm aulas extra de matemática, inglês, piano, violino, etc. É comum ver os autocarros das escolas a entregar miúdos às onze da noite.

Sobre a alimentação

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Quando chegámos eu estava gravidíssima e a comida Coreana que encontrava era toda super picante. Como estava a viver dentro do campus da universidade a minha cozinha nem forno tinha porque na Coreia come-se fora com muita regularidade. Na verdade sai mais barato ir comer fora que cozinhar em casa mas é quase impossível encontrar restaurantes de comida “ocidental”.

Com o tempo a minha tolerância ao picante aumentou e fui descobrindo outros pratos Coreanos que não são picantes e que são uma autentica delícia. Aprender Coreano também facilitou a tarefa de ir ao supermercado. Uma coisa é certa, passámos a comer muito menos carne porque os preços são proibitivos e a nossa Leonor é viciada em algas, só gosta de arroz se fôr “sticky rice” e devora dumplings como ninguém.

Sobre ser criança na Coreia do Sul

Os Coreanos adoram crianças e se forem ocidentais, são super amorosos, atenciosos e deliram por nos ver. Ter crianças ocidentais na Coreia é como ser famoso. Pedem-nos para tirar fotos, dizem-nos a toda a hora que a Leonor é linda, falam dos olhos enormes que tem, querem dar-lhe doces, prendas. Ela adora ser o centro da atenção, o reverso da medalha é que como mãe não faço ideia de como ensinar-lhe que não se fala e que não se aceita nada de estranhos quando ela está habituada a ser assediada milhentas vezes por dia desde o dia em que nasceu.

Eu descreveria a Coreia como o paraíso dos parques infantis, museus e actividades para crianças. Os coreanos fazem tudo pelas crianças. É fácil levar os miúdos a sítios engraçados sem gastar grande dinheiro e ao fim-de-semana é comum ver as famílias a fazer piqueniques, lançar papagaios e a montar tendas de campismo nos parques da cidade.

Sobre a língua

A língua é complicada e o meu Coreano é muitíssimo básico. Como o plano nunca foi ficar na Coreia para sempre decidimos não ensinar à Leonor mais que fazer a vénia e dizer os básicos “olá”, “obrigado”, “adeus”. Por outro lado como quase não há portugueses na Coreia e entre o nosso grupo de amigos todas as conversas são em Inglês decidimos ensinar-lhe ambas línguas. Com o pai ela fala em Português, comigo em Inglês. É estranho ensinar a um filho uma língua que não é a nossa língua mãe mas é um esforço necessário para evitar que eles se sintam isolados.

Sobre os cuidados médicos

A Coreia é conhecida na Ásia como destino de eleição para “turismo médico” porque os cuidados de saúde são de qualidade e a bom preço. A vacinação é gratuita e mandatória e e quando se compram medicamentos na farmácia não nos vendem uma embalagem gigantesca de comprimidos. Por exemplo, se a receita médica diz que o tratamento é de sete dias, na farmácia dão-nos o número exacto de comprimidos para esses sete dias.

Sobre as férias

Os dias de férias dependem do número de faltas dadas e dos anos de trabalho. Ao fim de onze meses de trabalho tem-se direito a 15 dias de férias e ganha-se um dia extra por cada dois anos de trabalho (até um máximo de casa 25 dias de férias).

Os Coreanos “são workaholics”, muitos nem chegam a tirar todos os dias a que têm direito. Um ou outro pode aproveitar para viajar mas por norma não se houve falar de grandes férias.

O melhor e o pior da Coreia do Sul

O pior é sem dúvida a poluição. O ar é terrivelmente poluído em Seúl. É um grau de poluição a que nós não estamos habituados em Portugal. A cidade é cercada por montanhas mas na maioria dos dias não se consegue ver nem os edifícios que ficam ao final da rua.

O melhor é sem dúvida a segurança. Custei a acreditar que isto não era um mito mas é pura verdade. Em hora de ponta, não é preciso andar preocupado com a carteira. Na universidade é frequente ver os portáteis nas mesas sem ninguém por perto. As encomendas são deixadas à porta de casa. As nossas bicicletas também. Cheguei a ver uma nota caída no chão do metro e ninguém a apanhava (porque quem a perdeu vai gostar de a voltar a encontrar). Quando o telemóvel me caiu da mala num sítio público movimentado, entregaram-no na recepção.