A Rita foi parar ao Japão, Cláudia vive feliz no Tennessee, nos EUA, Marília escolheu a República Checa, a Mafalda está em Angola, a Joana foi parar à Noruega, a Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Rita Machado
Ilustração: Rita

Rita vive em Yokohama, a segunda maior cidade do Japão, em termos de população. Foi lá parar há três anos e tem uma filha de 11 meses, nascida lá. “O meu marido, que também é português, recebeu uma proposta de emprego para vir para o Japão e, depois de conversarmos, decidimos vir. Eu despedi-me do meu emprego em Portugal e viemos juntos em Fevereiro de 2015.”

Rita era professora de inglês numa escola de conversação. “Estas escolas são muito comuns no Japão porque o nível de inglês dos japoneses é, em geral, muito fraco.” Desde que a filha nasceu, Rita optou por ficar em casa: “As creches públicas são em japonês, o que é um obstáculo para nós) e são dificílimas de conseguir vaga, há listas de espera infindáveis e é preciso cumprir imensos requisitos. O rendimento do agregado familiar é que determina o lugar na lista de espera, os dois pais têm de estar a trabalhar a tempo inteiro, etc. As creches internacionais são privadas mas são extremamente caras e há pouca oferta.”

O ritmo de vida é relaxado, os japoneses são pessoas calmas e tranquilas, mesmo em cidades muito grandes e com muita gente, as pessoas não se atropelam e há muita disciplina.

Sobre criar filhos longe de casa

É difícil, não temos estrutura familiar nenhuma e a rede de amigos é pequena. Além disso, os poucos amigos que temos começam a partir o que ainda dificulta mais.
A principal dificuldade no Japão é a comunicação, sinto que há muitas iniciativas e serviços que desconheço por não falar japonês. Os primeiros meses de vida de um bebé são sempre complicados, mas sinto que por estar aqui me sentia muito só e cansada. Por outro lado, é um privilégio enorme poder acompanhar a 100% o crescimento da minha filha. Se estivesse em Portugal, certamente já estaria a trabalhar. As pequenas vitórias sinto que se fazem no dia-a-dia. À medida que a minha filha vai crescendo, é mais fácil sair com ela, encontrar-me com outras mães, participar em playgroups e em actividades, passear.

Sobre a alimentação

A alimentação é muito diferente da portuguesa. Além do sushi que todos conhecemos, mas que os japoneses só comem esporadicamente porque é caro, usa-se soja de todas as formas e feitios, noodles de diversos tipos, doces de feijão vermelho são uma iguaria e a fruta tem preços proibitivos. Claramente, a fruta não faz parte da alimentação diária dos japoneses mas, em contrapartida, comem muito arroz (sem nenhum tempero) e legumes. Produtos que não fazem parte da alimentação como azeite, tomate, ervas aromáticas são difíceis de encontrar e são muito caros. Por curiosidade, a primeira comida de um bebé no Japão é arroz e pouco tempo depois, tofu.

Sobre ser criança no Japão

As crianças são bem vistas aqui e há uma grande rede de apoio às crianças. As pessoas mais idosas metem-se com os bebés e as crianças estrangeiras (acho que por serem diferentes) mas os mais novos não ligam muito.
No Japão, praticamente não existem prioridades para idosos, grávidas e acompanhantes de crianças a colo. Apenas há lugares reservados nos transportes públicos mas, em geral, ninguém respeita. Por outro lado em todo o lado há espaços para bebés que têm salinhas para amamentação, fraldários em óptimo estado, dispensador de água quente e lavatório. Alguns até têm balanças e espaço de brincadeira para crianças. Para além disso, é comum as casas de banho públicas terem cadeiras de bebé e fraldário.

Há imensos parques infantis, playrooms e playareas sempre muito bem cuidados e limpos. As juntas de freguesia têm espaços próprios para as crianças brincarem com uma estrutura bem montada, imensos brinquedos para várias idades e são gratuitos. Isto é uma das melhores coisas do Japão. Também há imensos museus e parques para crianças.

Mae no Japao

Sobre a língua, adaptação?

A língua e a cultura são as principais dificuldades de viver no Japão. A língua não é difícil, se comparada com as línguas latinas, mas o sistema de ideagramas é o verdadeiro quebra-cabeças e há poucas coisas escritas com alfabeto romano. A cultura é muito diferente da nossa, os japoneses são, geralmente, frios, pouco dados a proximidade e a contacto pessoal, fechados no seu pequeno mundo, pouco espontâneos e tímidos. Há uma estrutura hierárquica muito forte na cultura japonesa e tudo tem de ser como programado. Aqui, não há espaço para o “desenrascanço”.

Sobre os cuidados médicos

Os cuidados médicos são zelosos e bons, os hospitais funcionam e o atendimento de emergência é célere mas acho que a qualidade dos profissionais de saúde em Portugal é melhor. Os médicos japoneses são avessos a dar medicação a crianças, o que em geral é bom, mas há situações em que tem mesmo de ser e é difícil que receitem algo.
Durante a gravidez, fiz 19 ecografias mas no parto não dão epidural nem qualquer medicação para alívio da dor.

Sobre as férias

No Japão, há poucos dias de férias — 12 — mas há muitos feriados. Ao fim-de-semana vêem-se muitos pais com crianças nos parques a fazer piqueniques e a brincar, e os espaços para crianças estão inundados de gente. Nas férias, os japoneses tendencialmente passeiam pelo Japão ou viajam para locais não muito distantes, sendo que o Havai está no topo da lista de preferências dos japoneses.

O melhor e o pior do Japão.

O melhor do Japão é a segurança e a honestidade das pessoas. O sistema de transportes públicos é excepcional e muito pontual. O atendimento ao público é muito cuidado, cortês e educado.
O pior é a barreira linguística e a falta de espontaneidade. Tudo tem de seguir o protocolo senão não é possível. A sociedade é muito hierarquizada e ainda bastante masculina. É ainda prática comum as mulheres deixarem de trabalhar quando casam e têm filhos e ficarem em casa. Além disso, as pessoas não dão propriamente opinião e também não existe muito espírito de entreajuda nem de auxílio ao próximo.