O correio da leitora de hoje traz-nos a Joana, cuja vida não é como ela imaginou. Mas que um dia, quem sabe, poderá ser.

Texto: Joana
Ilustração: Rita

Talvez esta carta pareça um desabafo. Talvez nem sequer eu seja uma amaezónia e seja mais fraca do que forte, mais resignada do que determinada. Não sei. Só sei que me apeteceu escrever e dizer o que me vai na alma, sem complexos ou vergonhas.

Tenho 40 anos, sou mãe de uma menina fantástica de 3 anos e nesta fase da minha vida estou a viver um grande dilema.
Tudo começou quando estava grávida; acho que o meu marido me considerou um dado adquirido a partir dessa altura e mudou completamente a sua forma de ser. Aliás… não deve ter mudado, ele deve ter sido assim toda a sua vida, eu é que não reparei de tão inebriada que estava pela paixão que sentia, pela ideia de engravidar e ser mãe e pelas coisas bonitas que me dizia. A minha intuição ia-me dizendo que alguma coisa não estava bem, mas eu não “me” ouvia.

A gravidez foi muito difícil com enjoos e vómitos todos os dias e durante todo esse tempo percebi que tinha pouco apoio e, apesar dele estar desempregado, ainda se queixava das poucas coisas que fazia em casa referindo mesmo que “estava a fazer aquilo que tradicionalmente era o trabalho de uma mulher”.  Nesse dia entrou-me uma mosca para a boca de tão estupefacta que fiquei.
Entretanto a minha filha nasceu e como todos sabemos, um filho poucas vezes fortalece uma relação que já está tremida.

Vivi muitas situações difíceis, discuti demasiadas vezes, apresentei os meus argumentos com calma e outras vezes com menos calma e referi sempre aquilo que sentia vezes sem conta,  mas nada mudou. A violência psicológica manteve-se e as faltas de respeito também (menos, é certo… mas o que me magoou eu não consigo esquecer).
Defesa ou não, passei a ser indiferente a tudo o que diz. Já nada me choca, já nada me interessa, já nada me ofende. Fiquei fria, uma pedra de gelo. Virei-me para mim própria e para a minha filha apenas. Cuido dela e cuido de mim. Estou mais bonita, mais saudável, pratico desporto e lá em casa as discussões (quase) acabaram. O amor? Não sei, acho que está esvanecer-se.

Dizer nao

E agora vem o cerne da questão: aquilo que me dói realmente é não ter vontade de ter outro filho com este homem e não poder dar um irmão ou irmã à minha filha. Isso sim, faz-me chorar todos os dias, faz-me sentir egoísta para com a minha filha, faz-me sentir a pior mãe do mundo. Mas sinto que seria também uma falta de respeito para comigo própria se o fizesse. E vivo nesta dualidade de sentimentos mas cada vez com mais certezas de que não terei outro filho.
Tentar resolver isto na minha cabeça e no meu coração está a ser muito duro. Vejo-me numa situação que nunca pensei viver, idealizei sempre ter dois filhos e agora estou assim… Será sempre um grande desgosto que viverá comigo e mais tarde nem sei bem o que irei dizer à minha filha.  O mais curioso nisto tudo é que não me sinto amada nem respeitada e ainda assim, ele diz querer outro filho. E eu digo que não. NÃO.