A Marília escolhei a República Checa, a Mafalda está em Angola, a Joana foi parar à Noruega, a Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Cláudia Lopes tem duas filhas, uma com seis e outra com apenas 5 meses. Em Março de 2013, farta da instabilidade política e económica em Portugal, decidiu, juntamente com o marido, emigrar. “Decidimos procurar trabalho, ambos, e analisar atentamente a primeira boa proposta de trabalho. Quase por mero acaso foi ele a encontrar trabalho primeiro no país que ambos tínhamos combinado que não seria um sitio onde gostássemos de viver: os Estados Unidos da America.”

Quatro anos depois, Cláudia, que em Portugal era enfermeira, é, segundo a própria, “orgulhosamente mãe a tempo inteiro”. Um sonho tornado realidade na terra dos sonhos e das oportunidades.

Texto: Cláudia Lopes
Ilustração: Rita

Sobre criar filhos longe de casa

A primeira grande dificuldade que sentimos quando cá chegámos foi a alimentação. Quando somos mães de primeira viagem habituamo-nos a certas rotinas alimentares, a certas marcas de iogurtes, papinhas, frutinhas que aqui não há. Mas, a grande dificuldade foi a falta da avó. A nossa filha mais velha tem uma relação muito especial com a minha mãe, e fazê-la entender que a avó não estava aqui, foi complicado. Ainda hoje ela conta os meses, os dias, as horas, os minutos para irmos a Portugal de férias para poder ficar na casa da avó. Houve outro pequeno choque cultural inicial (e nos fez muita confusão, mas que hoje em dia já estamos habituados) — eles têm bastante pudor em mostrar o corpo, mesmo no que diz respeito as crianças.
Portanto, a primeira vez que eu e a minha filhota de 2 anos fomos à piscina, ela de fralda e contente a chapinhar. Quando acabámos mudei discretamente a fralda da piscina para uma normal e vesti-a. Começo a reparar que estão todos a olhar para mim e reparo também que todas as meninas da mesma idade têm um fato de banho completo vestido por cima da fralda. Aprendi a minha lição.

No entanto, por mais incrível que pareça, quando estamos longe do nosso país consideramos uma vitória tudo o que conseguimos fazer.  Vitórias celebradas por nós, vitórias diárias que nos dão força para continuarmos e querer fazer mais e melhor. Por outro lado, há um certo orgulho em querer mostrar, cá fora, que os portugueses são bons no que fazem (seja no que for). Portanto sentimo-nos extremamente orgulhosos quando um de nós faz algo de bom ou supera alguma dificuldade. A mais recente vitória, a nossa filha mais velha, que pratica ballet há dois anos, ter feito uma audição e ter sido escolhida para dançar o “Quebra Nozes”.

Sobre o ritmo de vida

Nós vivemos no Tennessee, sul dos Estados Unidos, numa cidade chamada Chattanooga (em cuja área metropolitana vivem cerca de meio milhão de pessoas). As cidades aqui são um pouco diferentes das da Europa. Aqui têm uma baixa, com prédios altos, trânsito, etc, e depois espalham-se na zona envolvente em bairros de casinhas,  lojas, bombas de gasolina, escolas, igrejas, floresta e mais floresta. Isto tudo para dizer que, apesar de vivermos nos subúrbios de uma cidade grande, conseguimos viver calmamente o nosso dia-a-dia. O dia começa cedo e às 6h30 estamos todos a tomar o pequeno almoço, saímos de casa pelas 7h45 para estarmos na escola as 8h. À tarde a escola acaba as 15h30 e depois disso ainda há tempo para ir ao parque ou a outro sítio qualquer.
É um ritmo de vida calmo, pacífico, muito diferente daquele que estávamos habituados em Portugal. Temos agora muito tempo em família, o que é espetacular.

Sobre as creches e escolas

Aqui há a tradição das mães (ou os pais) ficarem com as crianças em casa até elas irem para a escola primária, que aqui começa aos 5 anos. Depois disso as mães entram no mercado de trabalho,independentemente do seu nível de educação escolar. Portanto, a oferta de creches não é enorme, e nas que existem, habitualmente as crianças ficam apenas duas ou três manhas por semana, para se habituarem ao ambiente escolar.
Reparámos também que habitualmente as creches que existem pertencem a igrejas, é estranho para nós, mas é assim que funciona aqui.
A nossa filha mais velha andou 3 dias por semana numa escola que pertencia a uma igreja baptista (nós não temos qualquer ideologia religiosa) e só temos coisas boas a dizer dessa pré-escola, portanto, no nosso caso foi uma boa experiência. Actualmente ela frequenta uma escola pública e é igualmente maravilhosa. Não temos encargos com livros, só temos que comprar o material escolar que posteriormente é dividido por todos os meninos na sala de aula.

O horário das aulas é das 8h30 às 15h30. Quem chegar um minuto depois das 8h30 tem de ir à recepção da escola assinar uma falta de atraso.
Ela pode ir/vir para a escola de autocarro escolar, que pára à nossa porta se assim o solicitarmos, os famosos autocarros amarelos. No nosso caso, vamos buscá-la de carro. Esperamos dentro dos carros na chamada “car line” e as crianças são entregues cuidadosamente em cada carro.
O ensino é diferente, mas até agora bom. Prepara-os de uma forma mais prática para o futuro, achamos nós, não é tão teórico como em Portugal. Um ponto menos bom é que as escolas focam-se muito na competição entre os miúdos, competição essa que, se os pais não ajudarem a gerir em casa de uma forma saudável, pode ser um bocadinho de mais para os miúdos.

Mae nos EUA

Sobre a alimentação

Horrível! Há agora uma preocupação crescente com a alimentação saudável, mas mesmo assim, nem sei por onde começar. Em primeiro lugar, raramente comemos fora e em casa mantemos uma alimentação bastante portuguesa. Há sopa de legumes todos os dias, pratos portugueses. A mais pequenina está agora em fase de diversificação alimentar e, tal como a mais velha, começou com a sopa portuguesa, que adora.
Na escola temos a felicidade da filhota poder levar comida de casa. Comida de faca e garfo, perdão, garfo e colher – porque ela não pode levar faca para a escola.
Reparamos que aqui os miúdos (e os adultos) comem na sua grande maioria as chamadas “finger foods”, comidas que não exigem talheres. E, como tal, eles têm alguma dificuldade em comer correctamente de talheres.
Outra questão engraçada é aqui é muito frequente comer-se fora ao almoço e ao jantar, portanto, eles acham incrível nós sabermos cozinhar tão bem. Uma coisa que me faz muita confusão é o uso e abuso de cafeína (os adultos estão o dia todo de copo gigante cheio de café que vão bebendo ao longo do dia) e o uso e abuso de refrigerantes pelos adultos, crianças e bebés!

Ser criança no Tennessee

A relação com as crianças é espetacular! Não há prioridade em lado nenhum, mas toda a gente te dá o lugar, deixa-te passar a frente e ajudam-te. Há um grande sentido de comunidade e de ajuda ao próximo neste país e quando há crianças envolvidas esse espírito multiplica-se. As pessoas metem-se com os miúdos, as mães trocam desabafos.
Não costumam tocar nas crianças, mas costumam elogiá-las e falar directamente com elas. Algo diferente de Portugal, os miúdos têm alguma responsabilidade (de acordo com a sua idade). É frequente os miúdos serem responsáveis por pequenas tarefas diárias quando são mais pequenos — ir ver o correio, varrer a entrada da casa. Quando são adolescentes cortam a relva, tomam conta dos miúdos mais pequenos.

Há imensos parques infantis, imensas zonas verdes. Os miúdos aqui ainda se juntam muito nos quintais das casas a brincar uns com os outros, brincam muito na rua. Há muita oferta em termos de actividades para eles, não só actividades extra-curriculares como música, artes, desporto, mas também festivais, festas, espetáculos, museus… Há muitas bibliotecas públicas aqui e habitualmente oferecem diariamente programas apropriados a cada faixa etária: musica/histórias para bebés, clube do lego/trabalhos manuais para os mais crescidos, programas de informática para os adolescentes, etc.

Sobre a língua

Para ser sincera, foi muito fácil. Houve inicialmente algumas dificuldades para percebermos o sotaque das pessoas, mas actualmente é mais raro isso acontecer.
A nossa filha também começou a falar inglês com muita facilidade. Houve uma altura em que misturava na mesma frase português e inglês, mas actualmente distingue melhor as duas línguas. A mais pequenina ainda não fala, estamos curiosos para ver como vai ser.
Em casa falamos português e fazemos questão de corrigir a nossa filha quando ela diz qualquer coisa mais “americanizada”. Às vezes notamos que ela tem a tendência para falar português com a gramática inglesa, dizer coisas como “aquela vermelha flor”. Reparámos também que ela não consegue dizer o som “lh”, por exemplo “bacalhau” ela diz “bacaliau”.

Sobre os cuidados médicos

São bons, mas temos de pagar, não há sistema nacional de saúde. Temos um bom seguro pago pelo empregador do meu marido. Com o seguro de saúde pagamos sensivelmente 20 dólares (17 euros) por consulta, e habitualmente não pagamos mais nada. Os tempos de espera praticamente não existem. De resto, como em todo o lado, há bons e maus profissionais.
Aqui o utente é muito responsável pela sua saúde, o médico serve mais como conselheiro, tu segues os seus conselhos se quiseres. É um pouco estranho, mas as vezes é um bocadinho libertador. Tive aqui a minha bebé, fiquei internada, e só posso dizer maravilhas. Todo o seguimento da gravidez, parto e pós parto foram absolutamente maravilhosos.

Sobre as férias

Depende da empresa, o meu marido tem 24 dias por ano. A escola tem uma semana de férias no Outono, duas semanas no Inverno (coincide com as férias de Natal), uma semana na Primavera (famoso spring break), as férias do Verão começam a 30 de Maio e acabam na segunda semana de Agosto.
No nosso caso utilizamos os dias de férias todos para irmos um mês a Portugal, no Verão, carregar baterias. Os americanos viajam muito dentro do país, os que têm miúdos costumam ir anualmente à Disney World ou a destinos de praia na Florida ou Alabama. É também muito frequente ir acampar ou ter uma autocaravana e percorrer os Estados Unidos.

O melhor e o pior dos EUA

O melhor é a capacidade de sonhar, poderes fazer aquilo que queres, perseguires os teus sonhos, o céu é o limite.
O pior são alguns pudores parvos: demasiado pudor em relação ao corpo e demasiadas restrições no consumo de álcool. Os jovens sofrem tantas proibições que depois acabam por fazer tudo escondidos e só fazem asneiras. Outras vezes crescem um bocado com poucas vivências saudáveis de adolescência (aqueles erros que todos nos cometemos quando somos adolescentes) e depois sentem necessidade de procurar essas mesmas vivências enquanto adultos.

Sentimo-nos muito felizes aqui e parte integrante da comunidade. Não sabemos se queremos voltar. Dói de saudade a falta da família, dos amigos e do mar. Mas às vezes estar longe ajuda-nos a apreciar como nunca tínhamos feito anteriormente cada momento passado em Portugal, cada abraço a família, cada brinde com os amigos, cada som de cada onda, o pôr do Sol no oceano.