No que toca a feitios e nervos, somos todos muito diferentes e, quando nos nasce um filho, parece-me natural que apareçam à superfície novas camadas de personalidade que estavam até então adormecidas.

Texto e ilustração: Rita

Mães “oh yeah”

Conheço algumas mães “oh yeah”. E tenho inveja delas. São mães que estão sempre na boa. E o facto de estarem sempre na boa faz com que, através de um estranho processo energético (ou químico, não faço ideia, não percebo nada destas coisas), tudo à volta delas esteja sempre muiiiiiita tranquilo. Elas já eram mulheres calmas. Depois engravidam sem planear muito e estão-se nove meses a rir. O primeiro filho nasce e o parto é do caraças. Fácil. O recém-nascido quase não tem cólicas e dorme a noite toda. Depois engravidam outra vez e ficam logo com o assunto arrumado. Se aparecer um terceiro ou quarto filho, para elas continua a ser fácil. Andam com os filhos em grupos animados, uma das crianças atira-se do escorrega de cabeça, outra manda um triplo salto do baloiço em andamento e um terceiro salta ao pé coxinho em cima de uma vedação. Mas está tudo bem. Ela nem precisa de dizer “tenham cuidado”. Se por acaso um dos filhos se magoar ela consegue dominar a situação toda e a tensão dela mantém sempre os mesmos valores.

Tipos de maes

Mães “falamos em casa”

As mães “falamos em casa” estão talvez em maioria. Quem é que nunca ouviu esta frase dita da boca da sua mãe? São aquelas mulheres que namoram, casam e planeiam ter um filho. Durante a gravidez sentem um misto de insegurança e felicidade, mas estão preparadas. Lêem várias coisas sobre a maternidade e já contam com o que aí vem por isso não se surpreendem muito com os vários níveis de dificuldade da brincadeira quando a criança aterra no berço. Depois os miúdos vão crescendo e elas vão lidando com as questões do dia-a-dia como podem, mas em sociedade dão uma imagem de que está tudo controlado, sem margem mínima para dúvidas. Os resultados normalmente são bons, ainda que de vez em quando as assalte a dúvida se serão boas mães. São. Quando no supermercado, no restaurante ou no parque, os petizes começam a ter comportamentos desviantes (com isto entenda-se desviantes para os adultos, mas normais para as crianças) a situação nunca culmina num acidente. Parece que vai derrapar mas não derrapa, é como o jogo da corda bamba. Mesmo que pareça que estão a olhar para as prateleiras de feijão enlatado no supermercado, pelo canto do olho elas conseguem controlar os movimentos de duas ou mais crianças, que normalmente estão a brincar aos carrinhos de choque com o carro das compras, e evitar que um dominó catastrófico de prateleiras aconteça. E há outra coisa: elas só avisam uma vez. Depois dizem “falamos em casa”. E falam mesmo.  

Mães “porquê, porquê, porquê?”

Esta categoria é dedicada à mais nervosinha das mães. Ela também planeia o nascimento dos filhos. Depois ingenuamente, constrói um cenário idealizado por ela, pouco real, claro está, do que vai ser ter um bebé em casa. E parece que vai ser fácil. Tal como a mãe anterior também lê algumas coisas sobre maternidade e, na sua cabeça tudo vai ser um mar de rosas. Depois o bebé vem e leva, perdoem-me o termo, uma chapada-que-até-anda-de-lado. Quando tem que lidar com situações mais difíceis esta mãe  fica um pouco nervosa e percebe que afinal as coisas não são bem como tinha pensado que eram. Depois os nervos começam a passar também um bocadinho para os filhos, que gritam ainda mais, e entra-se num círculo mais ou menos vicioso (que atenção, pode ser quebrado com um copo de vinho depois do jantar, esta dica é de ouro). Ou seja, se esta pessoa não tinha descoberto até então que tem tendência para ser tensa, este é o momento da epifania. Estas mães costumam ser do tipo galinha e preocupam-se com tudo sobre a sua criança: correntes de ar, alimentação, problemas na escola, se está tudo na lancheira, etc. Se por acaso os filhos destas mães aparecerem com a cabeça partida ou um dedo esmagado elas literalmente não aguentam e têm severas quebras de tensão.