E nem sequer estou a falar do mundo no geral, apenas de Lisboa em particular. Não tenho dinheiro para visitar palácios, ir ao cinema ou a exposições.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Quando as crianças deixam de ser pequenos molhos de brócolos deitados no berço sem qualquer expressão facial e passam a gatinhar e a interagir com o mundo, ir ao parque começa a fazer parte da rotina, mesmo que se deteste. Depois as crianças começam a crescer, a fazer perguntas, a querer saber tudo sobre o mundo e os parques já não chegam, nem as voltinhas de bicicleta no largo da igreja. Queremos que eles vejam coisas, ouçam música, vejam peças de teatro e filmes de animação. Queremos levá-los a castelos e palácios como os que aparecem nas histórias que lhes lemos todas as noites, queremos dar-lhes o mundo.

Ora no passado sábado decidimos levar a miúda à exposição Van Gogh Alive, na Cordoaria Nacional. Basicamente uma sala escura cheia de telas nas paredes, tecto e chão onde são projectadas imagens dos quadros de Van Gogh, bem como frases do artista, cartas, fotografias, acompanhadas por música clássica e não só. Os putos deliram porque podem andar em cima das telas no chão, com imagens que mudam e mexem, sentem a música e absorvem tudo com uma alegria espetacular. Os pais, que já conhecem de cor e salteado os quadros e a história do pintor holandês, sentam-se no chão ou nos pufs e ali ficam a olhar mais para os petizes enlouquecidos do que para a exposição em si. Mas por eles tudo, não é assim? Pagámos 12 euros cada um, 24€ em três segundos que voaram da conta, ela entrou sem pagar – ainda bem que só tem 4 anos, se tivesse 6 acabava-se a borla.

No domingo planeámos ir ao Palácio da Ajuda dar uma mirada aos Mirós e a uma outra exposição que lá está, bem como mostrar um Palácio verdadeiro à chavala que acha que os castelos deviam ser de gelo como o da Elsa. Foi quando nos lembrámos de verificar se por acaso se pagava. PAM. 10€ cada um só o Palácio, 13€ com os Mirós. Seriam, portanto mais 26 euritos o que significariam uns bonitos 50 euros num único fim de semana, sem contar com uma eventual refeição num restaurante já que, caramba, cozinho todos os dias e mereço a merda de uma folga. Não fomos ao Palácio. Ingénuos pensámos que talvez o de Queluz fosse de entrada livre: nada disso. 10 euros que é para aprender.

Dinheiro

Se quisermos ir ao Palácio de Monserrate, em Sintra, pagamos 8€ cada um para ver uns jardins bonitos, é certo, e um palácio vazio. Nem uma mesa posta há para dar aquele ar de magia. Uma cama de dossel, nada de nada, só salas vazias, com excepção da cozinha a transbordar de panelas de cobre. 16 euros que custam a dar principalmente quando centenas de turistas passam lá todos os dias, dando certamente margem para que os portugueses possam pagar um preço simbólico. Mas a partir do momento em que se paga para ir ao Castelo de São Jorge, que não tem muita graça a não ser para tirar selfies com vista para a cidade, já se espera tudo. A menos, claro, que se viva em Lisboa. Aí não se paga. Mas também não se vai ao Castelo.

Se eu quiser ao cinema com a minha filha, fora da bela iniciativa do Monumental, largo 18 euros para estar duas horas fechada numa sala com um bando de gente que não conheço e a levar com a mesma publicidade com que levo na televisão.

Basicamente, eu não tenho dinheiro suficiente para mostrar coisas à minha filha a não ser jardins e parques infantis. E isso chateia-me. Chateia-me que neste País seja tudo tão caro, tudo tão estupidamente inflacionado como se fossemos todos turistas dinamarqueses ou ingleses ou alemães em vez de os pés rapados que somos, com um ordenado mínimo que mal chega aos 500 euros. Fico tão enervada e triste que até se me voltam as dores no pescoço. E depois lá vou gastar o dinheiro que não tenho com a osteopata. Estão a ver como isto é um ciclo sem fim?