A Mafalda está em Angola, a Joana foi parar à Noruega, a Sara está na Roménia, a Ana na Holanda, Joana foi para a Irlanda, a Diana rumou a Macau, a Teresa está em França, a Andreia e a Maria foram para a Suíça, a Sílvia foi para Moçambique, a Rita escolheu a Bélgica para emigrar, a Mafalda foi para a Suécia, a Sofia para o Qatar, a Irene foi para o Brasil, a Rute foi parar a Inglaterra e a Marisa escolheu o Luxemburgo. São portuguesas a trabalhar e a criar filhos noutros países, e que nos contam as diferenças entre lá e cá.

Texto: Marília Campos
Ilustração: Rita

Marília Campos tem dois filhos, um com seis anos e uma com 2. Em Novembro de 2013 pegaram no filho, nas malas e mudaram-se para a República Checa, para Brno, a segunda maior cidade do país. O motivo? O do costume: desemprego.

“Eu e meu marido ficamos sem trabalho, um filho pequeno para cuidar, uma casa para pagar, e o marido começou a procurar trabalho fora de Portugal. Encontrou aqui e mudou-se em fins de Julho de 2013. Ao fim de 4 meses quando ele já estava instalado e com trabalho assegurado, eu e o meu filho, na altura com 2 anos e 9 meses, viemos também para cá.”

Marília, fez várias coisas na República Checa, desde trabalhar numa equipa de helpdesk na IBM, a gerente de recursos em que liderava uma equipa de 30 pessoas. Pelo meio teve uma filha e ficou com ela e casa até aos 21 meses: “Aqui a licença de maternidade junto com a parental pode ir até aos 3 anos”. E com tudo isto ainda teve tempo para criar uma página de sopas, que vendia espalhando um pouco de portugalidade pela cidade, chamada What’Soup.

Em Fevereiro o marido acabou por receber uma proposta de trabalho irrecusável em Praga e há três meses que trocaram de cidade. Neste momento Marília está em casa com a filha mais nova e o mais velho começou a escola primária.

Sobre criar filhos longe de casa

Difícil. Solitário. Enriquecedor. Aprendemos a valorizar coisas que antes eram um dado adquirido e agora fazem falta. Fazemos dos amigos a família porque é impossível criar filhos sem qualquer rede de suporte. Principalmente quando os dois trabalhamos. A minha filha nasceu às 4h20 da manhã num hospital checo. Tínhamos um plano pronto para o caso de eu ter que ir para a maternidade a meio da noite e não sermos obrigados a levar o nosso filho connosco. Um amigo português estava de sobreaviso e veio para nossa casa às 2h da manhã para ficar com o nosso filho. E sim, o parto da garota foi rápido. As maiores dificuldades prendem-se inevitavelmente com as escolas… a forma de educar as crianças é muito diferente da portuguesa e os meus filhos são tudo menos checos. Não falo checo e muita gente não fala inglês. Torna difícil a comunicação muitas vezes. É muito difícil, não vale a pena dourar a pílula. Choro muito escondida, custa-me que os meus filhos estejam longe dos avós, tios e primos, dos padrinhos. Dói-me que o meu filho pergunte frequentemente quando voltamos a Portugal e eu ter que dizer que não sei, que ainda demora. Explicar estas coisas às crianças é complicado, não têm noção do que nos levou a vir para aqui e do porquê de ser complicado ir ver os avós. Mas é a vida de imigrante. Não há como evitar estas conversas e dores.

Sobre o ritmo de vida

O ritmo é muito bom para famílias. A vida começa cedo e acaba cedo. Há tempo para tudo. Até agora onde trabalhamos fomos muito respeitados e os horários de trabalho são pra cumprir. Não se espera que fiques mais meia hora gratuitamente a trabalhar como fazem em Portugal. Os transportes públicos são muito bons e baratos e não usamos carro a não ser para viagens longas. Supermercados e consultórios abrem às 6h ou 7h da manhã, porque os empregos começam cedo. Mas depois as pessoas terminam cedo também e há tempo para a família e isso é absolutamente maravilhoso! Ah, e normalmente o intervalo de almoço nos empregos é meia hora, o que nos faz sair mais cedo também e a levar comida de casa para poupar tempo e dinheiro. É uma outra mentalidade, e confesso que gosto mais deste ritmo e estilo de vida.

Republica Checa

Sobre a escola

Começam cedo, normalmente às 6h30 ou 7h. Públicas têm sempre ATL (chama-se Družina) a partir das 6h30 e às 7h40 levam os miúdos para as salas de aulas na primária. Normalmente as escolas públicas fecham entre as 16h/17h. Às vezes dava mesmo jeito ter uma avó por perto para ir buscar os netos à escola… temos de procurar empregos que sejam compatíveis com os horários das escolas, não há como dar a volta a isso. A educação checa é muito diferente da portuguesa. Tratam as crianças como seres independentes muito cedo, as crianças aprendem a vestir e despir sozinhas aos 3 anos pois dentro das creches é tudo aquecido no inverno e mudam de roupa obrigatoriamente. Nunca usam calçado da rua dentro de casa, seja que casa for, coisa que adoro pois é muito mais higiénico. Quando vamos a Portugal sou agora completamente incapaz de andar de sapatos dentro de casa.
Os checos amam a natureza e por isso saem todos os dias com as crianças à rua. Exercício, brincadeiras, passeios. Faça chuva, sol ou neve. E garanto que não ficam mais doentes do que em Portugal por causa disso. Aprendem a atravessar ruas e as regras da sociedade. Isso é bom. Mas também acham que a criança não tem direito a ter opinião ou a ser diferente. A palavra “robot” foi inventada por um escritor checo e é o que penso muitas vezes da forma como tratam as crianças nas escolas: querem que sejam como robôs, cegamente obedientes e sem contestar nada. Isso é completamente oposto à personalidade dos meus filhos: barulhentos, amorosos, com as emoções na boca e no corpo muito visíveis. São logo considerados hiperactivos ou outra coisa qualquer por não se comportarem como a norma. Não, não são hiperactivos: são muito activos e muito tugas.

Sobre a alimentação

A comida checa é, no geral, péssima. Salvo raras exceções que aprendemos a apreciar. Legumes? O que é isso? Raramente um prato tem legumes ou salada a acompanhar. Fritos e mais fritos. Carne de porco e de frango são a maioria que comem, peixe é pouco e de rio, do qual não gosto nada. Os meus filhos adoram peixe e eu também, acabo por vezes de ir a lojas específicas que vendem peixe de mar e gastar um bom dinheiro, porque é mesmo bastante caro. Adoram molhos doces, com mel e frutos silvestres. Sopas doces, com natas ou uma água com fiapos de cenoura e cebola. Comem muito pão, com geleia ou salsichas, bebem água com sabores e as crianças são habituadas desde bebé a beberem chás e água com sumos diluídos. Os meus filhos sempre foram a excepção na escola, pois são os únicos que só bebem água.

Sobre ser criança na República Checa

Os checos adoram crianças, mas não são pessoas muito afectuosas. Não abraçam nem beijam as crianças como nós fazemos — sendo que eu sou especialmente grudenta com os meus miúdos onde quer que esteja. Mas há uma geração de pessoas que são diferentes: os idosos. São super carinhosos e atenciosos, metem-se com os meus miúdos e conversam, coisa que eles estão sempre prontos para fazer. Estas diferenças nas gerações de pessoas de 40 e de 60 anos estão intimamente ligadas à história do país. O país está muito aberto aos estrangeiros há cerca de 50/60 anos atrás. Depois foi invadido e fecharam as portas a tudo o que era externo. As pessoas da minha geração são naturalmente azedas com os estrangeiros, acham que estamos aqui para lhes roubar sei lá o quê e tratam mal as crianças nas escolas também, infelizmente. As gerações acima e abaixo da minha já são muito mais abertas e amistosas.

Sobre a língua

A língua é horrível. É tão difícil…
O meu filho aprendeu na creche e agora na escola, a minha filha também, mas para adultos isto é mesmo difícil. Claro que sei muita coisas, mas não consigo ter uma conversa. Não dá para aprender checo sem professor e aulas a sério. Eu e o marido já começamos, mas com as vidas atarefadas isto vai devagar devagarinho. Entre o inglês e a boa vontade de pessoas que vamos encontrando e o precioso Google translate no iPhone, lá nos arranjamos.

Sobre diversão para miúdos

Há parques infantis em cada prédio. Não, não estou a exagerar. É um país voltado para as crianças, também por ter uma licença de maternidade muito longa, quase todos os restaurantes/cafés têm cantos para os miúdos brincarem, há muitos parques gigantes indoor super quentes onde podemos ir todo o inverno, e os parques infantis outdoor têm sempre árvores e sombras, areia no chão. Fico frustrada quando vamos a Portugal pois não há nada de nada para os miúdos simplesmente correrem e gastarem energia, ou se eu quiser tomar café com alguém não há um espaço para os miúdos brincarem. Aqui há cafés próprios para as famílias, com salas cheias de brinquedos, com babysitter para brincar e olhar por eles enquanto levamos o computador e trabalhamos sentados numa mesa ao lado deles, por exemplo. A oferta é ilimitada e estes espaços estão sempre cheios. Com a creche iam muitas vezes ao teatro e a parques temáticos, principalmente na primavera e verão.

Sobre os cuidados médicos

Não tenho queixas, mas é muito diferente do português. Para começar é sistema privado, funciona tudo por seguro de saúde. Mas por exemplo, eu, estando a cuidar da minha filha, se ela não está a semana toda na creche (pode estar em part time também, se eu quiser), o Estado paga o meu seguro de saúde pois consideram que a mãe está a trabalhar ao cuidar dos filhos. Quando temos um emprego, é o patrão que paga. Os tempos de espera são muito menores que em Portugal, mas não existe centro de saúde. Há apenas médicos privados que escolhemos consoante aceitem o nosso seguro e se falam inglês. Tem sido difícil porque há muita procura para os que falam inglês e às vezes estão completamente cheios de pacientes. Mas em geral a medicina praticada é muito boa. Por exemplo: a minha filha teve uma amigdalite feia na semana passada e a pediatra fez um esfregaço com cotonete na boca dela, enfiou aquilo numa máquina e em 5 minutos a máquina disse que a infecção era por streptococcus A. Muito mais fácil e rápido o diagnóstico e a medicação é mais adequada. A pediatra é num gabinete antigo, é uma senhora já dos seus 60 anos, mas tem aquela maquineta toda moderna. Acho que devia existir uma dessas em todos os centros de saúde em Portugal.

Sobre as férias

São 22 dias de férias, não existe subsídio de férias ou 13º mês. Normalmente os pais marcam férias nas férias escolares das crianças porque se não há uma avó onde os deixar ou uma escola com ATL em tempo de férias, a coisa complica. Os checos em geral praticam ski no inverno, adoram desportos de neve e gelo e no verão gostam de acampar e ir para as montanhas ou países de praia como Grécia e Croacia, que estão aqui perto.

O melhor e o pior da Republica Checa?

O melhor: o verde. Amam a natureza e há árvores por todo o lado. E é o país com a taxa de desemprego mais baixa da Europa. É um país maravilhoso para a vida familiar e para as crianças pelos motivos que já referi acima. E os transportes públicos! Eu não sabia que era possível viver sem carro até chegar aqui.

O pior: a mentalidade ainda muito fechada com os estrangeiros, e piora se o tom de pele é mais escuro, se és muçulmano, odeiam os ciganos e os russos… enfim. Igualmente mau, a comida e a língua. Mas isto a gente vai contornando aos poucos. Mas posso terminar dizendo que há checos que são pessoas maravilhosas, mesmo. Sem amigas checas eu não teria conseguido safar-me com as escolas e em muitas outras coisas. Tenho tido a sorte de ter anjos da guarda maravilhosos aqui neste país. São um povo que no geral precisa de algum tempo para te conhecer, mas podem tornar-se em amigos para a vida inteira. E este país é absolutamente lindo. E quando neva, ahhhhh, que beleza!