Há todo um discurso preparado, ou simples frases que saem quase sem darmos por elas.

Texto e ilustração: Rita

Pais de filhos que não dormem. É sabido que a loucura nos afecta fortemente. Mexemos o café com a caneta, guardamos os cotonetes no frigorífico, fazemos chamadas com o comando da televisão, abrimos a porta com os óculos de sol e enfiamos a chave nos olhos. Temperamos a sopa com açúcar, fazemos quiche com iogurte de morango, tornamo-nos bipolares e, sobretudo, o nosso discurso não bate a bota com a perdigota (amigos, não fujam de nós, dizem que isto é passageiro). Agora que já estou numa fase melhor, só me levanto uma vez por noite (luxo), já consigo ver as coisas de outra perspectiva. Consigo ver, por exemplo, que o meu discurso muda quando durmo e quando não durmo. Aqui fica uma amostra. O que dizemos quando os nossos filhos dormem e quando eles não dormem. (Parece que estou a ouvir a minha voz.)

Quando dormem:

— És tão linda, minha filha! E tão esperta!

— Olhem só para esta fofura.

— Esta criatura é o máximo.

— De longe a minha melhor obra.

— Sou uma taça, uma chaleira, uma colher…

— O mundo é lindo.

— Se dormisses assim todos os dias até podias ter um mano.

— És espectacular.

— Conseguiste fazer esse desenho incrível na parede? És o máximo.

— Sabes que és a menina mais bonita do universo, não sabes?

— Sim.

— A minha filha porta-se sempre bem.

— Quem é a minha vampireta preferida, quem é?

— Não conheço ninguém mais criativo que a minha filha.

— Opá, vejam bem esta mini-pessoa espectacular.

— Fui eu que fiz.

— Não cantas só bem. Danças bem, desenhas bem, és a maior em tudo.

— Vem cá, chuchuzinho de sua mamãe.

Sono

Quando não dormem:

— Epá, esta miúda está-me a dar cabo dos nervos.

— Já disse que não.

— Raios me partam, já estou com dor de cabeça.

— Nem pensar.

— A mamã está muito cansada, agora não consigo brincar, ok?

— Nem pensar em ter mais filhos.

— Quando é que isto vai passar, Nossa Senhora de Guadalupe!

— Escolho dormir.

— Quem é que riscou o raio da parede?

— Oh, não!

— Sabias que todos os meninos do universo estão agora a dormir, menos tu?

— Já não aguento ouvir a minha voz.

— Anda cá, pequena punk.

— Acho que vou dormir.

— A minha filha vai dar cabo de mim em 4, 3, 2,…

— Sabem o que são 4 anos sem dormir? Não sabem.

— Já imediatamente.

— Dormir.

—  O que é que me aconteceu?

— Que corajosas as pessoas que têm muitos filhos.

— Mas quem foi o anormal que fez isto?

— Não.

— As tuas amigas vêem cá dormir quando dormires a noite toda.

— Hoje não há gelado.

— Estou tão cansada. Acho que me vou deitar já.