A música que mais se colava ao cérebro era o Smells like teen spirit, com “a denial, a denial, a denial”, em loop o dia todo. Hoje a luta é contra um “rapazinho que, embora pequenino, tem muito tino”.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Por falar em música: sabia de cor todas as canções do “Ten” e do “Nevermind”, agora esse espaço de memória foi substituído por “um pastorinho que andava a pastorar”, um rei com uma grande barriguinha mas que não pára de comer, pelo Manel mais o raio da bola que ele deixa sempre fugir, e pelo João que tem dificuldades em segurar coisas tão leves como um balão.

Eu era fixe e profunda mas agora faço perguntas escatológicas (“fizeste cocó, não fizeste?”).

Eu era tão fixe que cheguei a usar alfinetes de dama como brincos e Doc Martens na praia. Agora tenho protecções de plástico nas tomadas e os alfinetes estão dentro de um cofre, fechado à chave, na prateleira mais alta da casa.

Brincar é uma chatice: é por isso que o deixamos de fazer quando crescemos.

Sair do trabalho e ir directamente jantar fora sem passar por casa primeiro é a maior e melhor prova de liberdade que uns pais podem ter.

Não saltes em cima do sofá, olha que cais. Não comas a comida do cão. Não, também não a podes pôr no nariz. Não toques tambor a esta hora. Não chores. Não cuspas. Não risques a mesa. Nem a parede. Nem o sofá, já agora. Não, não podes levar o edredon para a escola. Não dês beijinhos na caixa de electricidade. Não ponhas isso na boca. Não fujas. Não grites. Não te ponhas com essas coisas. Não se bate na mãe. Nem no pai. Nem no cão. Não me largues a mão quando atravessamos a estrada.

Lembro-me vagamente de acordar depois das 10h e o único desafio matinal era decidir onde ia ao brunch. Hoje o desafio é conseguir tomar o pequeno-almoço antes que ela acorde e evitar dedos na minha torrada e apropriação indevida do meu kiwi.

Tentar que uma criança seja razoável é como tentar ensinar um gato a ladrar. É muito tarde, tens dormir. Tens de beber água para ficares sem tosse. Tenho de te pôr a pomada nos olhos porque tens dói-dói. És muito pesada, não te consigo levar ao colo. A resposta é sempre a mesma: berros.

Os bebés não dormem, descansam por breves instantes.

Qual é coisa qual é ela que embora pequena em tamanho tem o poder cataclísmico de um daqueles tornados americanos com nomes de pessoas? Um bebé.

Maternidade

Há duas coisas que, apesar de existirem desde os primórdios dos tempos, a humanidade não se consegue habituar: chuva e o choro de um bebé. A reacção é a mesma como se uma nave extraterrestre tivesse parado para pedir indicações: incredulidade, medo, fuga.

Não há maior pressão do que a exercida por um redondo par de olhos infantis, que nunca pestanejam, fixados na cara dos pais. Sem qualquer sorriso que acompanhe o olhar, torna-se impossível de corresponder às expectativas dos pequenos seres.

Não há nada mais assustador do que levar um recém nascido ao colo de uma divisão para a outra.