Nunca imaginei um cenário cor-de-rosa relativo à maternidade mas também nunca imaginei que o período pós-parto fosse tão negro.

Texto: Graça David
Ilustração: Rita

Só há cerca de um mês é que o meu filho começou a dormir períodos seguidos de duas horas ou mais. Passava o tempo a berrar a plenos pulmões — eu que tinha esperança de ser a próxima Mãe Dolores e calhou-me um Pavarotti. Na maternidade fizeram-lhe análises, perguntaram-me se teria tomado anti-depressivos durante a gravidez, que o bebé revelava comportamentos de síndrome de abstinência, um reflexo de sucção demasiado apurado (parecia mesmo um animal e só berrava e esperneava, nada o sossegava). Mãe há menos de 24 horas, ainda desvalorizei a questão da primeira enfermeira, mas quando a segunda, a terceira e por fim a quarta que entraram no quarto me perguntaram o mesmo, eu que nada entendia de bebés mas que até me encontrava num estado de otimismo, entrei em pânico. A resposta veio a seguir às análises: estava tudo bem com a cria. “O seu bebé é apenas um bebé reativo. Para nós médicos é bom, para os pais é que dá mais trabalho.”

Passados estes dias, que se confundem com horas mas também com anos, (“aproveita que vais ter saudades”, dizem-me. Aproveito o quê? A privação de sono que me leva à loucura? O choro constante que deixa os ouvidos a latejar e me tira a capacidade de raciocínio lógico?) já apelidei o meu filho de inúmeras alcunhas, umas riquinhas outras nem por isso. “Florzinha de cheiro” é uma delas, pois berra se lhe bate um pouco de vento ou se no carro, apesar das proteções com bonecada que me vi obrigada a comprar para todos os espelhos, entra uma minúscula frincha de luz solar — cai o Carmo e a Trindade.

O meu filho teve (acho que já posso começar a falar no passado) cólicas desde a nascença. Nem as vacinas o fizeram chorar tão intensamente como as cólicas. Tinha pena do meu filho por ter tantas dorzinhas, tinha pena de mim por não descansar, não  dormir e estar numa ansiedade constante.

E escrevo agora este texto porque ele adormeceu há cerca de 20min (mas daqui a pouco já vai mamar outra vez) e escrevo porque pela primeira vez o meu filho dormiu seis seguidas, e ontem sete para me compensar dos 40min seguidos e agitados durante o primeiro mês (acordava aos berros com as cólicas). Até agora o recorde eram quatro seguidas que ocorreram apenas quatro vezes desde que nasceu.

Mas o que me tem custado mais ao longo deste período curto-e-longo da minha vida tem sido a exposição às constantes observações dos que têm e não têm filhos, que dizem que todos os bebés são diferentes, mas ao mesmo tempo estão sempre a equipará-los ao meu com quem estiveram apenas nem meia dúzia de vezes. E que logo por sorte (ou azar) o apanharam num momento raríssimo de paz angelical em que só me apetecia abaná-lo para mostrar aos outros do que ele era capaz.

Quando ia a caminho do centro de saúde, para o curso de recuperação pós-parto, assim que o colocava na babycoque começava a fechar o olho e era capaz de ser o bebé mais calmo naquele período, depois de me tirar a noite de sono e de capacidade auditiva.

“É normal, os bebés choram”, “são todos assim”, “é só uma fase”, “aproveita que vais ter saudades” — além de não ajudar em nada, não é bem verdade. Todos os bebés são de facto diferentes e todos dão muito trabalho, mas um bebé que dorme muito pouco e está constantemente a berrar desespera e é preciso ajudar e dizer mais do que um “É normal” com ar paternalista de quem é conhecedor de uma verdade absoluta. É preciso ouvir aqueles pais que precisam de ajuda e ajudá-los e reconhecer que não é assim tão normal.

E felizmente tive alguma dessa ajuda: das enfermeiras do centro de saúde e de algumas mães que lá encontrei, de elementos da família, de amigos, da pediatra que conseguiu chegar ao cerne da questão (afinal, apesar da quantidade de cocó diária, o meu filho ainda tinha mais por fazer, só que não consegue bem).

Mas observações como “tens que ter calma” (onde está o botão off para carregar após três horas de berros ininterruptos?) ou “será algo que tu comeste?”(com tom acusatório) não ajudaram nunca. E apesar de o meu filho ter nascido com 3,135kg e já pesar seis com 10 semanas ainda cheguei a ouvir a célebre “terá fome?”ou “o teu leite estará fraco?” apesar do leitãozinho que carregava nos meus braços.

Finalmente o período das cólicas parece estar a passar, começo a recuperar alguma sanidade mental, a desfrutar melhor do meu lindo filho que já tem felizmente menos desconfortos (que nos despedaçam o coração por imaginar o que eles estarão a passar) e aprendi porque tanta gente mente. Quando alguém me pergunta se está tudo bem e se ele dorme bem, respondo que sim, com um sorriso fingido, apenas para evitar a frase condescendente: “Isso é normal!”