Ao longo do desenvolvimento dos filhos acontecem coisas, desde conseguirem saltar com os dois pés, até ao pé coxinho, terminando em alterações de personalidade que nunca são boas. As crianças são pessoas horríveis.

Texto: Diana
Ilustração: Rita

Lembro-me de uma altura em que, dado o rol de queixas que alguns amigos tinham dos filhos — não dorme, diz que não a tudo, atira-se para o chão a fazer birras — eu pensava “tenho muita sorte,  minha filha é uma fixe”. Fácil de convencer, boa onda, bem disposta. Um doce de menina. Coisa fofa de sua mãe. Até que vieram os 4 anos, ou agosto, ainda não percebi, e a minha filha fixe transformou-se numa pequena cabrita do pior que há. Chamo-lhe cabrita para não chamar cabra, porque na verdade foi nisso que se transformou. Vá lá, não fiquem chocadas — quem diz a verdade não merece castigo.

A minha filha amorosa, de caracóis saltitantes, transformou-se no anti Cristo de um dia para o outro e há dias em que não sou capaz de a aturar. Não consigo, desculpem. Ela é pequena mas sabe acabar com a boa disposição de uma sala inteira. É preciso uma disposição especial para suportar a travessia no deserto seguida de chuva de sapos gosmentos que é aturar a minha filha neste momento.

Nao mama

A palavra mais repetida é, claro está, “não”. Ela não quer tomar banho, ela não quer comer, ela não quer ir para os avós, ela não quer ir ao restaurante, ela não quer dormir. Ela não quer nada, mesmo que meta insufláveis e baloiços. Não.

Ela chora cada vez que é contrariada, coisa que acontece bastante porque a merda da vida não é como nós queremos muito menos como uma pirralha de 4 anos idealiza. Por dia temos muitas lágrimas, ranho e baba, tudo ao mesmo tempo e, às vezes, pés a bater no chão ou pontapés nas costas do banco do carro. Banco onde eu estou sentada, óbvio.

Temos também expressões acusatórias como “és feia” e mãos no ar em jeito de chapada rapidamente travadas com um olhar ameaçador e um “baixa essa mão imediatamente”. Para tudo ficar mais divertido a criatura passa as tardes com cara de prisão de ventre, amuada como uma adolescente insuportável mas sem as questões existenciais. Mais ou menos.

Todos os dias são uma tensão, todos os dias me enervo, grito, ameaço porque ela já não vai a bem, raios partam, nem a técnica da chantagem resulta. E eu não tenho outro remédio senão transformar-me numa tocha humana, em combustão a todo o instante.

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14 Comentários

  1. aqui por casa estamos na mesma… 5 anos, até para pedir água é a chorar ou a espernear. Chora para dormir, chora para acordar, chora para ir para o sofá, chora se nos levantamos do sofá. O seu dias são passados nisto.

  2. Susana Ramos

    Ah Ah Ah muito bom! Tal e qual o meu e nem 2 anos ainda tem! Essa figura tipo tocha humana tb tenho sido eu em casa, na rua, em todo o lado. Acabou de descobrir o mundo e a forma de o demonstrar são o choro e gritos constantes e super altos de toda a gente ficar a olhar! Só penso é uma fase, é uma fase. Não sei bem se é verdade ou se digo isto só para me convencer a mim ( pois todos os dias piora um bocadinho! Como é q é sequer possível!?). Mas qd começa a dançar que nem um louco ligado à tomado sem jeito nenhum com os braços e pernas sem sentido e sorri todo contente a tocha passa a baba em 3segundos! Loucos mas muitos amados! 💟

  3. Eu também tenho uma dessas, tranco-lhe um bocado na casa de banho a pensar na vida, sai de lá mais calma.

  4. como a percebo! que saudades dos 3! pense assim, isto passa!(daqui a 20 anos).
    coragem não está só. estamos consigo e você conosco!

  5. Pensava que era só a minha filha que agia como adolescente.
    Porra sabe bem saber que não sou a única com estes dramas.

  6. Privação do que mais gosta, um bom castigo, pode custar até mesmo a nós, mas acabará por aprender e ficar mais calma!

  7. Ladylioness

    Pois é… Mas nessa idade ainda são as meninas da mamã. Aos 13 anos… É q são elas! Nós somos chatas, elas é q sabem tudo! Acho bem pior!

  8. A minha já tem 12. Mas lembro-me dessa fase em que estão sempre a ver até onde “estica a corda”, coincidiu com a data da separação de mim e do pai dela. Foi difícil, mas ainda é… Ajudaram-me os conselhos da minha irmã mais velha com um filho mais crescido: o não é não, e é já. Não há mas nem meio mas. Caluda e já. Ainda resulta, mas é precisa muita força e apoio que nem sempre temos.

  9. Opahhh tal e qual… a minha irmã com quem desabafo e é a pessoa que eu peco help… partilhou comigo esta ligação.. . Com certeza será pra me deixar mais confortável e é para eu pensar que afinal não sou eu que estou sem paciência… mas sim ela que está a testar o meu limite…. a minha toca, nas férias de Agosto andou sempre acessa… eu só pensava… mas o quê que aconteceu a minha linda e loura filha, meiga amorosa e carinhosa… transformou num bicho das birras, do choro ou do bate o pé ( que por sinal me tira do serio)… estava mortinha que chega se a altura do infantário… E quando chegamos a casa continuou com as mesmas coisas…. começaram as regras e os castigos…. resultado já não vê bonecos há 2 semanas e pouco e quando começa a esticar se… ameaço que ou dia chega a casa e não vai ter bonecos nenhum para brincar. Bom vai resultando (graças a deus) mas garantidamente que rotina do colegio e uns bons castigos dão resultado…. obrigada mana por me mostrares que afinal não sou uma extraterrestre. 😙

  10. Rute Matos

    A minha pequena só tem 14 meses e também já quer desafiar a mãe e o pai!! Nem quero imaginar quando chegar essa fase.
    O irmão foi bem mais calmo.
    Boa sorte!

    Blogdiariodeumafamilianormal.blogspot.pt

  11. Sónia Josué

    Meu Deus, sei o que isso é! Tinha um filho que era fixe e agora (aos 7) é só parvo! Nunca fui pessoa de me “desorientar” e agora ando num constante estado de nervos!… Adoro-o mas com satisfação lhe apertava o garganete, de tal
    maneira me enerva com as constantes “birras” e ar de quem simplesmente não quer saber!…

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