Estamos em Setembro e é impossível avançar mais no calendário sem falar do terrível mês de Agosto, essa temporada que nunca mais acaba e frita os miolos a qualquer pai e mãe. 

Texto e ilustração: Rita

Como é sabido são poucas as escolas que mantêm as portas abertas em Agosto. O resultado é uma nação de pais aflitos, sem saberem muito bem como lidar com a falta de escola e rotinas. Há aqueles que, sortudos, recorrem à família, há os que optam por tirar férias em Agosto e depois há os que são freelancers (como eu) e tentam trabalhar com os filhos em casa (esta parte é uma piada).

Os dias são muito quentes, muito compridos e muitos parados. Quando vou à janela há 1000 lugares de estacionamento (a única coisa boa), não há pessoas no passeio e a miúda enfada-se. E eu também. Quando estou à janela, se estiver com atenção, de vez em quando passa uma daquelas bolas de palha, a toque de vento quente, e a paisagem tem cactos grandes, como vejo nos westerns.

Ukelele

Todas estas condições propiciam uma coisa da qual todos os pais querem fugir a sete pés: birras. Birras puras. Daquelas mais lindas, mais aguçadas e cansativas. Ainda por cima, cá em casa, a petiz fareja a nossa angústia e, quanto mais nos esforçamos para tornar um dia interminável em momentos mais ou menos interessantes — ir ao parque, patinar, comer um gelado — mais ela aumenta a fasquia da guerrilha. As coisas que fazem normalmente parte da rotina em dias de escola levam um risco por cima.

— Vamos lavar os dentes. Não!

— Agora vamos almoçar. Espera aí um bocadinho que eu já te atendo.

— Hora do banho! Não pode ser ainda, estou aqui a acabar uma coisa.

E por aí fora. A cada cavadela dou de caras com uma minhoca e há acesas discussões.

Fico a pensar, cheia de culpa, confesso, que perdi a capacidade de passar dias inteiros com a minha filha. Será possível? Porque é que isto se tornou uma maratona tão difícil? Será que é ela que se farta de passar tanto tempo comigo? Às vezes parece-me bem que sim. E nesses dias pede-me para visitar uma tia, uma amiga ou os avós. Por mim tudo bem. É bom para ela e é bom para mim, mas de vez em quando sou incapaz de me libertar da sensação de batalha perdida. QGM (que grande merda). Agosto é difícil, convenhamos. A escola faz falta, os amiguinhos e as educadoras também.

Apesar de ser difícil como o raio trabalhar com ela em casa, a minha pequena punk anima-me os dias. É impossível não rir quando prepara espectáculos de variedades para eu assistir, baila loucamente por cima dos sofás e pinta as paredes com Bic vermelha em várias partes da casa. É impossível não desfrutar quando fazemos ginástica juntas no chão da sala ou vamos à praia e jogamos à macaca na areia molhada.

Ontem percebi que grande parte das birras estão ligadas com as noites mal dormidas da minha filha (sim, ainda). Criança que não dorme, criança rabugenta. Esta fórmula é infalível e não é preciso ser bom a matemática para saber o resultado. Quando está dias inteiros com os pais, eles são o melhor e mais legítimo saco de boxe.

Conclusão: este ano houve umas curtas férias no início do Verão, que parece que já foram o ano passado. Agora estamos a chorar por mais, e ao mesmo tempo a chorar para que a rotina comece, aquela coisa tão boa chamada sentimentos contraditórios. Conhecem aquela música “Estou além”, do António Variações? Vou ali cantar um bocadinho e venho já.